O avanço das bets desde a legalização no Brasil, em 2018, tem sido acompanhado pelo crescimento no número de pessoas com transtorno de jogo que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 10,5 mil atendimentos até maio de 2025, uma alta de 140%. A projeção da pasta é que o volume mais que dobre até 2028.
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Com a proibição das plataformas, instituída por medida provisória na última sexta-feira, o acesso fácil às casas de apostas deve ser limitado, o que pode auxiliar pessoas já em tratamento e evitar novos dependentes, segundo especialistas. No entanto, o risco de migração para bets clandestinas e o elevado número de pessoas ainda sem acesso ao cuidado demandam uma resposta mais estruturada do SUS.
O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor aposentado da Unifesp, onde coordenou a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, afirma que a proibição pode ser um passo importante, mas não vai resolver sozinha e de imediato o que se tornou um grave problema de saúde pública:
— Grande parte das pessoas com transtorno vão migrar para apostas clandestinas, então o problema persiste, só que o SUS não tem ainda uma estratégia com profissionais treinados, programas suficientes e bem organizados para lidar com essa complexidade. A rede de cuidados de saúde mental, de um modo geral, tem uma atuação limitada. Muitos não conseguem acesso nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Nos grandes centros urbanos, há uma cobertura maior, mas ainda assim aquém do necessário.
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Segundo dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas no Brasil (Lenad), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 2023 e 2024, 10,9 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais apresentam um padrão de jogo de risco ou problemático.
O impacto é significativo: uma análise do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estimou em R$ 30,6 bilhões por ano o custo associado à saúde, equivalente a 11,3% do orçamento do Ministério da Saúde aprovado para 2026. A projeção considera mortes adicionais por suicídio, perda de qualidade de vida decorrente de depressão e tratamentos médicos para a doença.
— A proibição, na perspectiva do paciente, é bastante positiva porque ele será alcançado. Quem estiver engajado no tratamento vai encontrar nisso uma barreira que não é perfeita, mas que ajuda na adesão à abstinência. Se vamos ter um impacto populacional significativo, ainda será necessário um acompanhamento para saber — diz Hermano Tavares, psiquiatra que coordena o Ambulatório do Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). — Mas a “caixa de Pandora” já foi aberta, então todo o esforço para lidar com esse problema precisa encontrar correspondência nas políticas de saúde pública, com investimento em prevenção e acesso a tratamento.
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Em meio à alta da demanda por atendimento, o Ministério da Saúde lançou, em janeiro, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, com diretrizes para o acolhimento, acompanhamento e tratamento desse público. A pasta também disponibilizou um autoteste online, que funciona como porta de entrada para o serviço de saúde e já teve mais de 170 mil acessos. Além disso, ampliou a oferta de teleatendimento de 600 por mês, em março, para 100 mil, em agosto.
As pastas da Saúde e da Fazenda também criaram uma ferramenta que permite à própria pessoa bloquear o acesso a sites de apostas. A medida já foi acionada por 1,3 milhão de brasileiros, dos quais 35% citaram a perda de controle sobre as apostas como motivo para o bloqueio. Para Laranjeira, que é PhD em Psiquiatria pela Universidade de Londres e presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), as iniciativas ainda são insuficientes:
— Sabíamos que isso se tornaria um grave problema de saúde, mas pouco foi feito. É um tratamento que requer acompanhamento psicológico de perto. O objetivo é que a pessoa readquira a capacidade de controle para não jogar. E envolve muito a família, as negociações da dívida. Ainda vamos ter um mercado paralelo, então vamos precisar de ações planejadas de longo prazo para conseguir de fato lidar com esse problema.
Impactos do transtorno
O transtorno de jogo, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorre quando a prática se transforma em um desejo persistente e difícil de controlar, levando a prejuízos pessoais, profissionais, familiares e financeiros. No Brasil, os atendimentos a casos do tipo ocorrem principalmente na faixa etária de 20 a 49 anos.
Os efeitos podem ser graves. Um estudo sueco que avaliou cerca de 2 mil pessoas com o diagnóstico encontrou uma chance 15 vezes maior de morte por suicídio entre os pacientes em comparação com a população geral. Em outro trabalho, realizado na Austrália, pelo menos 4,2% dos suicídios registrados foram relacionados ao jogo. Para cada pessoa que joga em níveis de alto risco, uma média de seis outras são afetadas, como membros da família.
A OMS considera que pessoas que passaram por eventos emocionalmente significativos, como separação, aposentadoria, lesão ou morte de um ente querido, podem estar em maior risco. Fatores como pobreza e discriminação também estão associados a um risco maior.
Na sexta-feira, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse durante o anúncio da proibição das bets que “os dados expressam o tamanho do problema, mas certamente não conseguem traduzir todo o sofrimento que aparece quando ouvimos os relatos de pacientes, profissionais de saúde e familiares”.
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