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setembro 27, 2026
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Neta de Beto Guedes, Julia Guedes estreia em álbum feito por financiamento coletivo: ‘Sou mais baby do que nepo'

Por · setembro 27, 2026
Neta de Beto Guedes, Julia Guedes estreia em álbum feito por financiamento coletivo: ‘Sou mais baby do que nepo'


“Álbum vermelho”, a estreia da cantora, compositora e pianista Julia Guedes — neta do ídolo do Clube da Esquina Beto Guedes — chegou ao streaming há pouco mais de um mês, quando a mineira ainda se preparava para completar 25 anos. Cheio de canções inéditas, compostas só por ela ou em parceria, o disco reflete os quatro anos “de trabalho diário, tentando entender os arcabouços que sustentam uma carreira”. Foi um disco que ela começou ainda em Belo Horizonte e que tomou rumos inesperados.
— Em 2023, um produtor tinha me chamado para gravar o single da música “Contra o medo”. A gente gravou, ficou incrível, e aí ele virou e falou: “Vem para o Rio para a gente gravar o seu álbum” — conta. — Eu tinha uns 15 alunos de piano em BH, tranquei faculdade, apartamento, larguei tudo e fui. E aí, quando cheguei, esse produtor sumiu. Ficava um mês e meio sem me responder. Marcava uma sessão no estúdio e aí desmarcava em cima da hora. Quando deu uns seis meses , me virou essa chave de “uai, talvez acho que não vá rolar por este caminho”.
No Rio, Julia morou num casarão abandonado em Santa Teresa.
— Fiquei sete meses tomando banho de água fria. Era um lugar muito lindo, com um salão enorme, só que muito descuidado, com o chão parecendo que ia ceder a qualquer momento — recorda-se ela, que resolveu então partir para uma campanha de financiamento coletivo do disco. — Apesar de nepo baby, eu não tenho a estrutura que os nepo babies geralmente têm. Sou mais baby do que nepo. Tenho o nome, que abre muitas portas, mas que não garante a questão estrutural. Eu já estava fazendo shows, já tinha um público, e esse apoio direto me deu liberdade para poder usar o dinheiro da forma que eu queria.
Shows em São Paulo
No próximo dia 15, Julia toca canções do disco na noite de comemoração dos 13 anos do selo Dobra Discos — que terá também shows de Iara Rennó, Luiza Brina e Maria Beraldo — no Picles (em São Paulo). E em seguida, no dia 21, vai com sua banda completa à Casa Rockambole, também na capital paulista, para o show de lançamento do álbum.
Julia, que está se formando em Design pela Universidade Federal de Minas Gerais (e que acabou cuidando de toda a arte do seu disco), diz que seu álbum de estreia não poderia ser outra coisa que não… vermelho.
— O vermelho começou a vir no momento da composição e foi tomando conta da minha vida — conta. — Esse disco foi urgente, foi romântico, foi visceral, foi apaixonado, foi revolucionário, foi impactante… tal qual com a cor vermelha. E o vermelho também vem da raiva e da revolta. O patriarcado é o que mais me oprime, e o disco foi uma resposta a isso. Só fui entender que podia ser pianista quando fui ter aula com a Luísa Mitre, porque apesar de o meu pai ser pianista eu nunca tinha visto uma mulher tocando piano.
O “Álbum vermelho” começou a nascer na virada de 2021 para 2022. “Contra o medo” foi a música que inaugurou a produção da Julia “oficialmente compositora”. Mas “Sus mareas” (parceria com Luiza Brina) já existia (“Era uma música que eu comecei a fazer com 14 anos de idade, em inglês”), só que acabou saindo em espanhol:
— Foi a Julia latina, eu estava ouvindo muito Mercedes Sosa. E aí também tem um encontro com a Luiza, que meio que formata essa música. Ela é outra artista conectada com o espanhol, querendo transcender a fronteira do Brasil e conseguir se conectar culturalmente com o resto do continente.
Julia diz ver sua estreia como “um álbum muito colorido, muito eclético, talvez”, que tem a ver com “a Julia estudando música, pirando em coisas sofisticadas e querendo dessa linguagem para ocupar um espaço que é difícil de ser conquistado sendo mulher”. Uma vitória para quem nasceu em Conceição do Mato Dentro, interior de Minas, e que saiu de lá, para BH, aos 16.
— Na minha família, tanto materna quanto paterna, todo mundo é músico. Mas a única pessoa que conseguiu prosperar com música foi o meu avô Beto. Então, para mim, a música sempre foi uma coisa muito mais perrenguística do que sustentável — diz ela, que toca piano desde criança. — E aí, com 7 anos de idade, eu botei na minha cabeça que eu ia fazer Medicina. Porque eu sempre fui nerdzinha e falava: “Ah, já que tenho essa inteligência cartesiana, deixa eu jogar ela nesse lugar que me instiga.”
Aos 14, ela já fazia pré-vestibular e estagiava em uma mineradora. Depois, deu um tempo na Medicina e resolveu estudar Design.
— Até sair o resultado do último Enem que eu fiz, tive uns meses e aí fui fazer um curso de tatuagem, comecei a viajar e a fazer show da Julia Guedes e com o que eu tinha. Foi por pouco tempo, mas foi um movimento que desencadeou uma série de movimentos — diz. — Descobri que o design não é apenas as visualidades, mas toda uma forma de pensar. Ali, conquistei uma disciplina. E já comecei a me movimentar para o meu álbum desse lugar de que “ó, existe o mundo artístico ao qual eu pertenço por natureza e existe também um mundo capitalista onde eu vivo”.
A sua voz, que considera “frágil, um pouco rouca”, Julia foi desenvolvendo, por necessidade, com aulas de canto:
— Na minha casa sempre teve essa divisão: eu toco, minha irmã canta. Sempre foi assim. E aí, quando eu comecei a aparecer na cena, fazendo umas lives cantando Clube da Esquina na pandemia, existia essa coisa do mercado de colocar as mulheres no lugar de cantora. Então, por mais que eu me apresentasse como instrumentista, foi isso que me abriu portas.
A ‘beto caverna’
No “Álbum vermelho”, Julia contou com participações de contemporâneos seus, como Luiza Brina e a cantora sergipana Tori, e de integrantes do Clube da Esquina, como Wagner Tiso e o próprio Beto Guedes, que tocou em “Vermelho sem nome”. Ela termina o disco relendo a “Página do relâmpago elétrico”, do avô e de Ronaldo Bastos.
— Tudo isso cria caminhos simbólicos que são muito bonitos. É uma forma, ao mesmo tempo, de eu me colocar como indivíduo contemporâneo e de assumir essa hereditariedade — emociona-se. — Na minha cabeça, meu vô tá lá na Beto Caverna dele e eu tô aqui, no meu corre. A gente se ama e, quando eu aciono ele, ele comparece. Mas ele não é uma pessoa que está me puxando pra frente, que fica em cima. Eu sei que ele se emociona, mas, ao modo dele, ele é reservado. Nossa relação é linda, excelente, mas eu não tenho esse tipo de expectativa para cima dele.

Neta de Beto Guedes, Julia Guedes estreia em álbum feito por financiamento coletivo: ‘Sou mais baby do que nepo'