Angélica chega de cara lavada ao anexo de sua casa que funciona como uma espécie de escritório e sala de reunião. Faz questão que a repórter se sente bem ao seu lado, e a conversa começa antes da entrevista. O assunto que brota organicamente é a Geração X, que cresceu em um mundo analógico, testemunhou a transição para o digital, culminando na IA, e sobreviveu às transformações. “A vida era bem diferente do que é agora, estamos presenciando tantas novidades. É muita mudança. Ao mesmo tempo, essa geração, que é a minha, consegue refletir sobre isso. Quem já nasceu dentro não teve outro mundo”, pondera.
Angélica
Sher Santos
Aos 52 anos, a apresentadora que iniciou a carreira na TV aos 4 e se transformou numa das comunicadoras mais icônicas do país acaba de estrear a segunda temporada de “Angélica ao vivo”, com 10 episódios, no GNT e no Globoplay. Na atração, recebe convidados como Ivete Sangalo e Lázaro Ramos para conversas ao redor da mesa de jantar, sempre acompanhada de André Marques (na cozinha) e Aline Wirley (no comando da banda). “De uns anos para cá, estou tendo a oportunidade de fazer as coisas em que acredito”, diz. “Queria estar ao vivo. Só temos o agora, o presente. Não tem edição. Só vai lá quem banca isso. E falo sobre temas importantes da atualidade”, emenda.
Casada com o apresentador Luciano Huck há 22 anos e mãe de Joaquim, de 21, Benício, de 18, e Eva, de 14, Angélica passou a usar a voz para abordar assuntos relevantes. Foi uma conquista da maturidade. Por muito tempo, teve receio de se posicionar por entender o peso de suas palavras. “Quando era mais nova, já sabia da responsabilidade que tinha. Não queria influenciar”, analisa. “Mas o tempo passou, fui impactada pelo movimento feminista e ganhei segurança em relação àquilo que considero as minhas verdades. Num determinado momento me deu um clique. Percebi como era importante eu me posicionar pelos meus filhos e pelo público que me acompanha até hoje.”
Foi com essa intenção que, em outubro do ano passado, na primeira temporada de “Angélica ao vivo”, pediu ao presidente Lula a indicação de uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal (STF). Também no programa, em novembro de 2025, criticou em alto e bom som o projeto aprovado pela câmara que dificulta o acesso por parte de meninas vítimas de estupro ao aborto legal. “É um assunto urgente”, afirma.
Durante uma hora e meia, Angélica falou sobre carreira, assédio, polêmicas, casamento e sexo. A seguir, os melhores trechos da entrevista.
O que podemos esperar da nova temporada?
O programa segue como um jantar, uma conversa informal. A gente já tinha algumas dinâmicas, umas brincadeiras, e vimos que isso funcionou. Relaxa o convidado. Dessa maneira, fica mais fácil tratar de assuntos mais espinhosos. Serão sempre três convidados, sendo que um é surpresa. E os temas têm a ver com o que aconteceu na semana.
Por ser ao vivo, passou alguma saia-justa na primeira temporada?
nA Tatá (Werneck) fala loucuras (risos). No primeiro episódio, ela brincou com a Grazi (Massafera) e o Murilo (Benício, a humorista apostou que dali a seis meses os dois estariam juntos). Acabou que todo mundo ficou querendo que eles namorassem. Também tive que sair no meio da formatura do meu filho Benício para gravar um dos episódios. Ao mencionar o assunto, comecei a chorar no ar. Mônica Martelli, que estava lá, segurou o programa. Acabamos falando sobre o crescimento dos filhos.
Você está entre a chegada da maturidade dos dois filhos maiores e o cuidado com os pais. Como está essa fase?
Angélica
Sher Santos
Na minha idade, a gente está nisso: os filhos indo embora (Joaquim estuda Business nos EUA e Benício, Engenharia em SP) e os pais envelhecendo. Minha mãe está com 83 anos, bem, dentro do possível. Meu pai sofreu um AVC há cinco anos e é dependente de tudo. Quando se tem os pais lúcidos, você tem alguém atrás. Agora, para onde vou correr? É triste ver a finitude. Tenho momentos de muita tristeza e nostalgia. Ao mesmo tempo, a vida está acontecendo para os meus filhos. Ficam esses dois sentimentos, é complexo. Faço análise.
O que tem aprendido com o passar dos anos?
Que o tempo é muito precioso. Desde 2020, me dedico a meditações e retiros, olho mais para dentro. Meu sonho é ir para a Índia.
Tem medo de envelhecer?
Medo não porque quero viver até os 103 anos. Treino muito porque venho de um pai que até há pouco tempo era atleta, está no DNA. E sigo uma rotina estética que está entranhada em mim. Gosto de fazer Botox, cuidar da pele e do cabelo, mas sei que o ambiente me tornou essa pessoa.
Em uma conversa com Luciana Temer, você se deu conta de uma violência sexual que sofreu aos 15. Como foi essa tomada de consciência?
Lancei “Vou de táxi”, originalmente uma música francesa, aos 14. Durante um festival, estava em Paris fazendo fotos atrás de um táxi e apareceu um grupo de rapazes. O fotógrafo sugeriu que eles fizessem uma foto comigo. Na hora do clique, eles botaram a mão na minha bunda, e eu congelei. Comentei o assunto com a equipe, mas ninguém ligou. Passou batido. Só me dei conta da violência que sofri décadas depois, nessa conversa com a Luciana. Aconteceram outras situações, diretores que “batiam” na minha perna, na minha bunda. E olha que estava sempre com meu pai, minha mãe ou irmã.
Como prepara a Eva, que está com 14 anos?
Angélica
Sher Santos
Com muita, muita conversa. Falo sobre os assuntos quando sinto que ela está pronta. É muito difícil ser adolescente nesse mundo conectado porque eles se comparam.
O que o episódio do namoro do Benício com a influenciadora Duda Guerra te trouxe (Duda se envolveu numa briga pública com a tiktoker Antonela Braga por causa da relação)?
Susto sobre o que é a internet. Um dia, estava no médico e, de repente, num canal sério de notícias, passou uma chamada: “Treta teen…”. Pensei: “O mundo mudou”. Serviu para meus três filhos entenderem a proporção que as coisas tomam quando o nome deles está envolvido. Mas não fiquei brava com ninguém.
Como você se define como sogra?
Angélica
Sher Santos
Acho que sou legal, não sou ciumenta. Meu filho está feliz, fico amarradona. No caso contrário, não trato mal, mas paro de ser fofa (risos). Sou também mãe passional, leoa.
Uma selfie na sua casa, ao lado de um time de estrelas, gerou críticas pela falta de diversidade no “elenco”. O que achou disso?
Fiz uma sessão com o filme “Minha melhor amiga”, de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães. Nunca imaginei que a foto fosse criar polêmica. Aí vem a internet querendo polemizar. Acharam uma coisa que não é verdade porque nem olharam a foto. Mas não se retrataram. Tudo pelo engajamento. É assustador.
Nas eleições presidenciais passadas você declarou seu voto. Pretende repetir?
Nunca tinha feito isso. Mas, naquele momento, achei que precisava pelo conjunto da obra. Ainda não pretendo declarar meu voto. Mas vamos ver, né? Se for necessário…
Em maio, Luciano huck, seu marido, deu uma declaração sobre o bolsa Família que virou polêmica (ele afirmou que o programa social não gera estímulo suficiente para a busca por autonomia financeira). isso Te afeta?
Existe aquilo que sei que é verdade e o que não é. Nesse caso, conheço a posição do meu marido em relação às desigualdades, o que ele faz por trás das câmeras. Para mim, isso é bobagem. Mas acabou ficando grande e usaram para fins políticos.
Você disse, em 2024, que o sexo entre você e o Luciano ocupava 60 % do relacionamento do casal. E agora?
Aumentou, estamos em 80% (risos). É vital. A gente tem uma química boa.
Assistente de beleza: Wallace Pires. Assistentes de fotografia: Diego Lima e Carine Felgueiras. Tratamento de imagem: Victor Wagner. Produção executiva: riny Grativol.
De volta à TV, Angélica fala sobre maturidade, pais e filhos e casamento longevo com Huck: 'Temos uma boa química'
