Qualquer pessoa que já acordou com uma ressaca reconhecerá seus efeitos físicos e psicológicos: dor de cabeça, náusea, autodepreciação, arrependimento e, talvez, até certa vergonha pelo comportamento desinibido que acompanhou a intoxicação alcoólica.
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Na era dos smartphones, a vergonha provocada pelas lembranças nebulosas da noite anterior costuma ser ainda pior quando existem registros fotográficos publicados na internet para que todos possam ver e julgar. O velho ditado de que a melhor cura para a ressaca é não beber demais na noite anterior pouco ajuda quem está sofrendo.
O hábito de beber em excesso tem uma longa tradição cultural. Em O Banquete, de Platão (cerca de 385-370 a.C.), que retrata uma festa regada a vinho em que os convidados discutem a natureza do amor, a embriaguez tumultuada do intruso Alcibíades contrasta com a capacidade de Sócrates de beber em excesso sem perder a sobriedade nem sofrer uma ressaca.
Os adoradores de Dionísio, deus grego do vinho, por sua vez, defendiam a embriaguez como um meio de alcançar um estado de transcendência. Em um antigo conjunto de hinos gregos atribuídos ao poeta mítico Orfeu, o Hino Órfico 29 invoca Dionísio para que conceda “abundância irrepreensível para alegrar-me”.
Gregos e romanos acreditavam que era perigoso e bárbaro beber vinho sem diluí-lo em água. O antigo historiador Heródoto escreveu que Cleômenes I, rei de Esparta, enlouqueceu depois de beber vinho puro com os citas, tribos guerreiras nômades, temidas e consideradas selvagens, originárias da antiga Sibéria.
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Na Bíblia, Noé embriaga-se com o vinho produzido na vinha que plantou após ser poupado do dilúvio. Seu filho Cam o encontra caído em um torpor alcoólico dentro da tenda e corre para contar aos irmãos, Sem e Jafé. Os dois então cobrem o pai sem olhar para sua nudez. Quando Noé desperta e descobre o que seu filho mais novo tinha feito, amaldiçoa os descendentes de Cam.
Estudiosos bíblicos interpretaram a atitude de Cam de diferentes maneiras, incluindo voyeurismo, castração ou estupro incestuoso. Segundo os pesquisadores John Sietze Bergsma e Scott Walker Hahn, trata-se especificamente de incesto materno, já que em outras passagens da Bíblia a nudez do pai é considerada equivalente à nudez da mãe.
Nada disso, porém, explica por que Noé parece não se sentir culpado por ter ficado bêbado em primeiro lugar. A mesma questão surge mais tarde no livro do Gênesis, quando Ló embriaga-se tanto que suas filhas mantêm relações sexuais com ele em duas noites consecutivas, aparentemente sem que ele perceba, para que possam gerar descendentes. O texto não informa se Noé ou Ló sofreram ressaca, embora a irritação de Noé sugira que sim.
O cristianismo manteve a aprovação antiga ao consumo moderado de álcool, mas transformou a perda de controle causada pela embriaguez no pecado da gula. Até a Reforma Protestante, o vinho ocupava um lugar especial na Europa medieval e na Grã-Bretanha: era transformado no sangue de Cristo durante a Eucaristia e também servia como símbolo de status social.
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Somente os ricos podiam se dar ao luxo de se embriagar com vinho. Embora os manuais ingleses da Idade Moderna alertassem para os riscos à saúde do consumo excessivo dessa bebida, eram principalmente a cerveja forte e a ale, mais baratas e populares entre os pobres, que as autoridades responsabilizavam pela embriaguez e por comportamentos antissociais.
Na Inglaterra medieval e do início da Idade Moderna, as tavernas eram vistas como antros de perdição. Isso fica claro em Piers Plowman, poema do século XIV escrito por William Langland. A obra narra como a personagem Gula é desviada de seu caminho para a igreja por Betty, a fabricante de cerveja.
No guia de saúde do século XVI A Compendious Regiment, or A Dietary of Health, Andrew Boorde descreve os efeitos da embriaguez: “a inteligência e os sentidos ficam entorpecidos, o apetite desaparece, a cabeça fica leve e dói”.
Ele aparentemente se refere aos efeitos da cerveja e da ale, pois menciona o “verme do malte”, que “faz tanta confusão na cabeça que o mundo inteiro parece girar sobre rodas”. O “verme do malte” era um tipo de gorgulho que infestava o malte usado na fabricação da cerveja, mas também era uma expressão usada para designar um beberrão inveterado.
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As curas para a ressaca
Será que nossos antepassados poderiam ajudar os consumidores de álcool de hoje a curar a ressaca? Naquela época, assim como agora, a ênfase estava principalmente na prevenção.
Boorde e seus contemporâneos recorriam aos antigos em busca de maneiras de evitar os efeitos desagradáveis do consumo excessivo de álcool. Autoridades clássicas recomendavam ingerir determinados alimentos antes de começar a beber. Amêndoas, repolho, marmelos assados, losna (ingrediente do absinto) e até pulmões de cabra eram considerados benéficos.
Também havia conselhos para aliviar os efeitos de excessos alimentares e alcoólicos. Autores de tratados dietéticos recomendavam exercícios moderados, especialmente caminhadas, além de descanso. A indução do vômito aparecia apenas como último recurso.
Mas a ciência moderna oferece alguma esperança de uma cura confiável para a ressaca? Um estudo recente publicado na revista Addiction concluiu que os medicamentos ácido tolfenâmico e piridoxinol, além do mais acessível extrato de cravo-da-índia, “merecem estudos adicionais”, embora as evidências disponíveis sejam consideradas de “muito baixa qualidade”.
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Os autores medievais de tratados alimentares já elogiavam o cravo-da-índia por suas propriedades restauradoras e seus benefícios para problemas estomacais. No entanto, talvez a própria ideia de uma “cura” para a ressaca esteja baseada na premissa questionável de que seja possível reverter os danos físicos e mentais autoinfligidos por um episódio de consumo excessivo de álcool.
Em seu divertido livro On Drink, publicado pela primeira vez em 1972, Kingsley Amis dedica um capítulo inteiro à ressaca, abordando tanto seus sintomas físicos quanto metafísicos, isto é, emocionais e psicológicos.
Amis aconselhava tratar a ressaca metafísica com “leituras de ressaca” e “audições de ressaca”: livros e músicas capazes de induzir um determinado estado mental. Em sua opinião, “é preciso sentir-se emocionalmente pior antes de começar a se sentir melhor”.
Vivenciar a ressaca, em vez de simplesmente mascará-la, seria essencial para expiar o “pecado” do excesso. Essa ideia não está tão distante do ideal medieval de mortificação.
*Joan Fitzpatrick é professora associada de Literatura Renascentista na Universidade de Loughborough.
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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