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setembro 26, 2026
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No Rio, 'ricos fora do radar' buscam casas longe do calçadão, ‘local feeling’ e alta gastronomia sem fila

Por · setembro 26, 2026
No Rio, 'ricos fora do radar' buscam casas longe do calçadão, ‘local feeling’ e alta gastronomia sem fila


Se o carnaval e o Todo Mundo no Rio, em fevereiro e maio, já têm lugar cativo no calendário carioca e a fama de ímãs de multidões para a cidade, setembro começa a despontar como uma espécie de esquenta antes da alta temporada. Este atípico mês da primavera, o mais chuvoso do Rio nos últimos 30 anos, não assusta. Os atrativos culturais, artísticos, gastronômicos e esportivos conquistam, invariavelmente, um público sem tempo ruim para gastar.
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Um desses chamarizes é o jogo que vai acontecer amanhã no Maracanã entre Baltimore Ravens e Dallas Cowboys, da National Football League (NFL), com ingressos de R$ 240 para cima e camarotes que podem superar os R$ 30 mil. O HotéisRio divulgou a pesquisa de ocupação hoteleira para o período do jogo: três regiões da cidade estão com a ocupação acima dos 90%: Leme e Copacabana (95,72%), Ipanema e Leblon (94,24%) e da Glória a Botafogo (92,77%). Desde o início do ano, o evento da liga esportiva profissional de futebol foi tratado por parte do mercado turístico como oportunidade para a oferta de experiências especiais para turistas de alto padrão de outros estados brasileiros e de países de fora que aterrissam por aqui.
Cotas de jatos, acesso a restaurantes estrelados sem enfrentar fila e a roteiros exclusivos de um Rio “raiz” são algumas das demandas. Casarões mais distantes da orla e dos paparazzi também passaram a ser cobiçados. Especialistas em mercado imobiliário afirmam que muitos clientes do segmento AAA, sobretudo os que já conhecem o Rio, abrem mão da vista para o mar e do burburinho dos calçadões outrora valorizados das coberturas da Vieira Souto e da Avenida Atlântica pela de privacidade e o silêncio das casas mais afastadas da orla. É parte do comportamento dos “ricos fora do radar”, com expressão específica em inglês: stealth wealth.
— Estamos vendo uma mudança na própria forma de demonstração da riqueza: antes, o luxo me parecia muito mais associado a ser visto e, agora, para uma parcela desse público, o valor está em controlar quem consegue vê-lo. A preferência por casas mais isoladas, fora dos circuitos mais óbvios, conversa com o movimento do stealth wealth: a privacidade passa a ser, também, um atributo do imóvel — afirma Duda Herriot, especialista em mercado imobiliário e co-fundadora da Bel Radar.
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Este mês, três hotéis do Estado do Rio garantiram lugar na lista “The 2026 Michelin Key Hotels: A Guide to the Global Selection”. A publicação aponta as mais qualificadas hospedagens do circuito internacional com chaves como símbolos, em vez das conhecidas estrelas dos restaurantes.
A seleção mostra que há espaço para o bucólico e mais próximo ao verde da natureza: o MGallery, em Santa Teresa, Rio, e o Fasano Angra dos Reis, na Costa Verde, ganharam uma chave. E também há chances para o tradicional: o Belmond Copacabana Palace recebeu duas chaves (três são a avaliação máxima) após a visita dos inspetores.
Nesta semana, a própria diretoria e os os atletas da NFL, com salários que podem chegar, individualmente, a R$ 150 milhões por ano, também apostaram na tradição: hospedaram-se no JW Marriott, que tem edifícios na Barra, Zona Sudoeste do Rio, e em Copacabana, na Zona Sul. O que não significa que eles não busquem descobertas.
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Internet impulsiona buscas
O que o Rio pode oferecer de melhor ou de único tem gerado curiosidade natural ou por conta da explosão de conteúdos on-line atiçando os interesse. No Instagram e no Tik Tok têm as tags “Brazil Core” ou o “Brazilian Way of Life” em alta, e isso impacta nas escolhas de consumo. É o que observa Isis Grossi, CEO do Grossi Group, com clientela e variadas idades e perfis. Ao notar o interesse de amigos de seu ex, um atleta de futebol americano, por dicas sobre o Rio de Janeiro, profissionalizou as orientações. Acumulou 15 anos de experiência e fala com propriedade sobre as preferências do mercado, hoje hiperfocado em dicas de saúde e bem-estar.
— O luxo é correr de manhã perto da natureza, fazer esportes. Entre os jovens, o hiking da Pedra Bonita é muito buscado. Para provar, o milho e o açaí. Os perfis desse tipo de público são variados. No pós-pandemia, houve uma mudança crescente de nacionalidades também. Este ano, recebemos grupos de japoneses e moradores dos Emirados Árabes, da Arábia Saudita. São pessoas que, quando vêm do alto segmento, para transitar pela cidade costumam segurança especial e o adiantamento das rotas que serão feitas. Entre os que vêm pelos esportes, a NFL, sobretudo, tem os de São Paulo, do Sul, além daqueles dos Estados Unidos, principalmente Miami, e do México — diz a empresária.
Isis Grossi, fundadora da Grossi Group
Marina Calderon/Agência O Globo
Além de facilidade, conveniência e conforto, clientes buscam personalização e experiências difíceis de reproduzir onde vivem. Quanto menos exigir deles empenho em buscar reservas ou negociações prévias, melhor.
— A maioria quer a experiência envelopada. Ao alugar uma casa de villa, ele escolhe se quer com segurança, se precisa de carro ou van blindados. Nós vamos incluindo. Ele entende vai ser cuidado da hora que chega até a hora de ir — diz ela.
Outra busca é pelo local feeling. Para terem viverem como locais, se o destino é praia, os destinos sugeridos aos turistas superam as areias de Ipanema e de Copacabana. Os points do luxo reservado são Grumari e cantinhos da Barra de Guaratiba. Por lá, param no Restaurante do Bira, na Estrada da Vendinha. O restaurante de decoração rústica comandado por um pescador, aliás, já foi ranqueado na revista “Newsweek”, dos Estados Unidos, como imperdível em culinária local.
Restaurante do Bira, em Barra de Guaratiba: cantinho reservado atrai turistas adeptos discrição
Reprodução
Kristin Hayman, de 44 anos, turista de Los Angeles, da Califórnia (EUA), jogou beach tennis no Rio e fez uma imersão na natureza:
— No Rio, você tem o mar, as praias incríveis, montanhas por todos os lados, cachoeiras, natureza por toda parte e, ao mesmo tempo, uma cidade vibrante, cheia de energia e personalidade. Há algo espontâneo nisso. Você pode estar na praia, tomando uma cerveja gelada e de Havaianas, meus calçados favoritos, e se sentir completamente à vontade. O Rio me ensinou a desacelerar — diz a turista, que nos Estados Unidos trabalha na área de segurança pública.
Beach Tennis: esporte conquistou turista da Califórnia
Fabiano Rocha
Caprichos sem fim
Para quem não abre mão do conforto, tudo tem seu preço. Recentemente, uma família londrina com três crianças solicitou roteiro, hospedagem e serviços em três cidades brasileiras: Foz do Iguaçu, Rio e Trancoso. Estavam inclusos voos de jato particular e de helicóptero entre alguns destinos, indicações de hotéis e restaurantes. Foi solicitada ainda a presença da diretora da empresa. Ao todo, a cliente desembolsou a bagatela de R$ 774 mil pelo pacote completo e a companhia da cicerone, que providenciou até balões temáticos de festa para um aniversário infantil numa suítes do sexto andar do Copa, aquele onde já se hospedaram Madonna, e Lady Gaga.
Para passeio aéreo, as boutiques que cobram mais caro sugerem helicópteros bimotores, mais robustos e com menos chances de falhas técnicas. Trajetos de 45 minutos podem sair a até R$ 38 mil. Por terra, vão carros com motoristas que conhecem bem o Rio, além das recomendações sobre áreas de risco a segurança. Os profissionais que fazem as escoltas prestam serviço de close protection, proteção executiva como aquela prestada às estrelas da música.
‘Sommelier’ de carnes
Entre as experiências que unem ineditismo e exclusividade, novos serviços oferecidos por restaurantes também agradam os paladares. No Corrientes 348, que tem unidades na Marina da Glória e na Barra, há um Guardián no salão. O profissional atua como um sommelier de carnes e orienta na escolha do corte ideal, de acordo com suas preferências de textura e intensidade de sabor.
— Aos poucos, os clientes estão identificando suas preferências e comendo com mais prazer — conta Henrique Freitas, especialista em carnes do Grupo Corrientes.
Henrique Freitas, especialista em carnes do grupo Corrientes 348
Divulgação
A gastronomia artesanal também ganha espaço. Como de costume, a tendência ganha termo em inglês, gastronomia handmade. Restaurantes com estrelas Michelin e hotéis de grande porte, inclusive de redes internacionais, investem em produtos do interior fluminense chancelados por premiações diversas: queijos de cabra e produtos suínos.
Uma das novidades do semestre é o Porco Serrano, projeto do produtor e charcuteiro Breno Furtado junto ao Instituto Bazzar, de Cristiana Beltrão, que daqui a dois anos terá insumos provenientes de novos animais. A iniciativa aposta na recuperação do patrimônio genético e no resgate de uma raça crioula de porcos em vias de extinção.
Em Friburgo, Furtado já tem o Porco Alado, que fornece insumos para restaurantes como o Lasai, de Rafa Costa e Silve, com duas estrelas Michelin,e em São Paulo, para o Evvai, com três estrelas Michelin, recebe as iguarias do Porco Serrano.
— Esta é uma raça de alto potencial que permite fazer cortes da charcutaria que exigem matéria prima distinta: lardo, copa, pancetta, pitina e salames, ou um lap yuk asiático. São produtos cobiçados no mundo todo. Os porcos industriais não aguentam os processos que garantem uma charcutaria de qualidade — explica Breno.
Reservas em restaurantes que oferecem experiências intimistas, entre eles o omakase do San, no Leblon, estão esgotadas até as próximas três semanas. No restaurante de André Kawai, aliás, uma nova experiência está em operação: a harmonização Tokusen. Em japonês, o termo significa “seleção especial” e é usado para designar produtos que se destacam por sua qualidade superior, refletindo cuidado, refinamento e um criterioso processo de seleção. A experiência gastronômica é R$ 830 e a harmonização, mais R$ 680. No Omakase do Haru, o Umai, tem reservas feitas até março de 2027. Este ano, algumas terças e quartas ainda estão disponíveis.
Umai, à esquerda, e San, à direita: omakases de Copacabana e Leblon oferecem experiências intimistas
Divulgação
Para furar fila sem serem flagrados, clientes do alto segmento recorrem a diretores de boutiques de luxo que costumam conseguir encaixes em estrelados com alta procura. Um dos clientes do Grossi Group, um ex-ministro da Índia, não se contentou em esperar na fila de reservas para um estrelado de Botafogo. Ligou para Isis e pediu ajuda para um encaixe.
— Estar aberto a mudanças de último minuto é importante para atender a esse público. Facilitar acesso a alguns locais e possibilitar que seus desejos sejam realizados é fundamental. É um ecosistema de hospitalidade em que o céu é o limite — afirma.
Os números
Cotas de jatinho: Uma das empresas que no Brasil vendem cotas de jato é a Avantto. Segundo dados internos, 25% dos voos têm o Rio de Janeiro como destino; cerca de 60% são associados a deslocamentos de lazer. Entre os principais destinos estão três aeroportos de Angra dos Reis e dois de Paraty, na Costa Verde.
Faturamento de R$ 3.3 bilhões: O Anuário 2026 da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association)informou mês passado que, em 2025, o turismo de luxo no Brasil teve faturamento de mais de R$ 3 bilhões. O Rio foi o destino mais buscado pelas operadoras (51%), seguido por Foz do Iguaçu (40%) e pelo Pantanal (24%).
Lazer no topo: O estudo também indica que para o turista do nicho luxo o lazer é o principal motivo das viagens. Réveillon, carnaval e casamentos, com 82%, 67% e 60%, são os principais eventos que os fazem sair de casa. Nas hospedagens, as atividades mais procuradas são as de bem-estar e relaxamento, além da gastronomia de alto padrão, com percentuais de 93% e 65% nas citações.

No Rio, 'ricos fora do radar' buscam casas longe do calçadão, ‘local feeling’ e alta gastronomia sem fila