O resultado das eleições presidenciais no Brasil pode determinar o futuro da Amazônia e influenciar diretamente os esforços de preservação da maior floresta tropical do planeta, segundo o artigo publicado pelo jornal americano The New York Times neste domingo (18). Favorito no segundo turno, marcado para o próximo domingo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) promete facilitar a exploração econômica da região, com medidas que preocupam especialistas pelo potencial de acelerar o desmatamento e comprometer o equilíbrio climático.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o candidato defende a abertura de áreas protegidas para atividades como mineração e agropecuária, além da construção de rodovias, ferrovias e projetos de exploração de petróleo na Amazônia. Embora tenha prometido combater o desmatamento ilegal, especialistas temem que sua proposta de flexibilização das normas ambientais permita ampliar a derrubada de árvores dentro da legalidade.
A candidatura de Flávio Bolsonaro conta com o apoio de representantes do agronegócio e de setores das elites econômica e política interessados na expansão de atividades produtivas na região. Durante a campanha, o senador defendeu a política ambiental adotada pelo governo de seu pai, período marcado pelo aumento expressivo da devastação florestal.
— A maior forma de tratar a questão ambiental é o que fizemos durante o governo Bolsonaro — afirmou o candidato.
A possibilidade de retorno do modelo ao poder, agora por meio do filho, também elevou a preocupação entre comunidades indígenas. Apoiadores do senador já advertiram grupos indígenas da Amazônia de que pretendem invadir suas terras caso ele vença a eleição.
Desmatamento pode provocar danos irreversíveis até 2050
Estudos indicam que a continuidade do desmatamento pode reduzir drasticamente o volume de chuvas na Amazônia e provocar a transformação gradual de extensas áreas da floresta em savana até 2050. O processo, conhecido como savanização, representa uma das principais ameaças ao equilíbrio ambiental da região.
Segundo Nico Wunderling, professor da Universidade Goethe de Frankfurt e pesquisador das mudanças climáticas, essa transformação é difícil de reverter depois de iniciada.
A pressão sobre a floresta está diretamente relacionada à demanda internacional por commodities agrícolas. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e soja, duas atividades que figuram entre os principais motores do desmatamento amazônico. Nos últimos anos, grandes extensões de vegetação nativa foram convertidas em pastagens para a criação de gado.
Bolsonaro promete agilizar a proteção ambiental e reduzir a burocracia, facilitando a obtenção, por parte de mineradores e pecuaristas, de licenças para o desmatamento.
Durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro, a área total desmatada chegou a quase 4,6 milhões de hectares. A extensão corresponde a aproximadamente 5.777 vezes a área do Central Park, em Nova York, ou cerca de quatro parques por dia de mandato. Se todos esses Central Parks fossem empilhados, um sobre o outro, a área de terreno desimpedido se estenderia por mais de 22,5 mil km.
O ritmo de devastação superou significativamente a média registrada na década anterior.
Propostas de Flávio preocupam especialistas
Apesar de defender o fim do desmatamento ilegal até 2029, Flávio Bolsonaro apresentou poucos detalhes sobre como pretende alcançar esse objetivo. A proposta também não representa uma mudança significativa em relação à meta oficial do Brasil de eliminar a devastação ilegal até o fim da década.
Atualmente, a lei brasileira permite que proprietários de terras na Amazônia removam até 20% da vegetação nativa de suas propriedades. Como senador, Flávio Bolsonaro foi coautor de um projeto de lei, que não avançou, para eliminar esses limites.
Caso ocupe o cargo de presidente, o candidato promete simplificar os procedimentos de proteção ambiental e reduzir a burocracia para facilitar a concessão de licenças a mineradores e pecuaristas interessados na derrubada de árvores. Para especialistas, porém, o combate ao desmatamento ilegal não é suficiente para garantir a preservação da Amazônia. A preocupação também envolve a supressão de vegetação autorizada pela legislação.
Na avaliação do cientista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador da Amazônia e das mudanças climáticas, a preservação da floresta depende da interrupção de toda forma de desmatamento.
— O que realmente temos que buscar é o desmatamento zero — afirmou.
Segundo Nobre, mesmo a derrubada legal de árvores coloca a Amazônia em risco e pode provocar uma redução expressiva das chuvas em grande parte da América do Sul, ameaçando a agricultura brasileira e os preços internacionais dos alimentos. O Brasil é o segundo maior exportador mundial de alimentos e pode ultrapassar os Estados Unidos ainda neste ano.
— Vamos perder tudo isso — alertou o pesquisador.
Governo Lula reduziu desmatamento e fortaleceu órgãos ambientais
Durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o desmatamento na Amazônia caiu ao menor nível já registrado, segundo dados da agência espacial brasileira.
Defensor do Acordo de Paris, Lula fortaleceu os órgãos de fiscalização ambiental, investiu na recuperação de áreas florestais e assumiu o compromisso de interromper o desmatamento até 2030. A diferença entre as propostas ambientais dos dois campos políticos coloca a preservação da Amazônia entre os temas centrais da disputa presidencial, diante dos possíveis impactos sobre o clima, a biodiversidade e a economia.
Crime organizado amplia ameaças à floresta
Além da expansão agropecuária e da exploração econômica, a Amazônia enfrenta o avanço de organizações criminosas envolvidas no tráfico de drogas, na mineração ilegal, na extração clandestina de madeira e na grilagem de terras.
Durante o governo Jair Bolsonaro, o enfraquecimento da fiscalização abriu espaço para a expansão dessas atividades. Especialistas temem que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro estimule grupos criminosos a ampliar sua presença no interior da floresta.
A localização geográfica da Amazônia também contribui para o problema. A maior parte da cocaína produzida no mundo tem origem na Colômbia, no Peru e na Bolívia, três países vizinhos do Brasil. A extensa rede de rios amazônicos se tornou uma importante rota de transporte da droga para mercados do outro lado do Atlântico.
De acordo com Robert Muggah, do Instituto Igarapé, organização brasileira dedicada ao estudo da criminalidade, a atuação dessas redes vai além do narcotráfico.
— Existe um ecossistema muito maior de garimpeiros ilegais, madeireiros, contrabandistas, transportadores e intermediários corruptos — explicou.
Segundo o pesquisador, esses mercados ilícitos se sobrepõem e contribuem para o avanço do desmatamento.
Combate ao crime a longo prazo
Aliado do presidente americano Donald Trump, Flávio Bolsonaro defende ampliar o monitoramento da floresta por satélites e adotar uma resposta militarizada contra organizações criminosas, que pretende classificar como grupos terroristas.
Entretanto, suas propostas de redução dos gastos públicos e simplificação dos órgãos responsáveis pela fiscalização levantam dúvidas sobre a capacidade de manter o controle das atividades ilegais na região.
Para Ariadne Natal, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o enfrentamento do crime organizado na Amazônia exige soluções duradouras, como investimentos na geração de empregos sustentáveis e cooperação internacional.
A especialista argumenta que essas medidas são fundamentais para combater as estruturas criminosas que atuam na região, em vez de depender exclusivamente do uso da força militar.
— Mais uma vez, estamos diante de uma encruzilhada, com caminhos muito diferentes para o que pode acontecer — afirmou.
'Eleição no Brasil pode definir futuro da Amazônia', diz The New York Times; entenda posição do jornal
