Desde sexta-feira, um novo monumento passou a estampar a paisagem no Aterro do Flamengo. Uma escultura de 700 quilos e três metros de altura, que já ocupou o Pão de Açúcar, desceu a montanha e aportou no parque, antecipando as celebrações de seu aniversário, que completa 61 anos em outubro. A obra “Parênteses”, de Carlos Vergara, foi instalada numa área ao lado do restaurante Assador, onde permanecerá por um ano. A inauguração ocorre neste domingo, a partir das 10h, com show do Cacique de Ramos.
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O ponto fica bem de frente para o Pão de Açúcar, agora emoldurado pela obra. Produzida em aço corten e composta de seis peças que se encaixam, “Parênteses” integra a série de esculturas apresentadas por Carlos Vergara na primeira edição do Projeto Maravilha, criado em 2024, para aproximar arte contemporânea, natureza, cidade e tecnologia. Na obra, formas geométricas que remetem a elementos da natureza, como folhas e troncos, articulam-se a grandes sinais de pontuação. A escultura funciona como moldura e convida cada visitante a construir seu próprio enquadramento da cidade.
— O Aterro é um lugar único no Rio: de lá, se olha para fora e também para dentro. Instalar uma escultura ali não é simples, assim como não deve ter sido simples para Burle Marx conceber o jardim extraordinário que transformou essa paisagem. “Parênteses” encontra agora uma nova possibilidade de diálogo com a cidade. Há tantas coisas a ver do Aterro que me parece especial poder colocar entre parênteses uma paisagem como a do Pão de Açúcar — comenta Vergara.
Carlos Vergara: o artista diante da obra
Divulgação
Show do Cacique de Ramos
1965: Desfile do Cacique de Ramos
Foto de Arquivo / Agência O Globo
A abertura será marcada por uma apresentação do Grêmio Recreativo Cacique de Ramos, com o qual Vergara mantém uma relação de décadas. Entre 1972 e 1976, o artista acompanhou o bloco e realizou a série fotográfica Carnaval, conjunto importante de sua trajetória, posteriormente apresentado na Bienal de Veneza de 1980. Naquele período, Vergara reconheceu no desfile “caciqueano” uma expressão estética original e política da cultura popular carioca. Desde então, tornou-se um incentivador das atividades da instituição, chegando a desenhar camisas para o bloco nos anos 2000. A presença do Cacique na inauguração materializa, no espaço público do Parque do Flamengo, a relação histórica entre a obra de Vergara e o carnaval.
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— Desde sua criação, o Projeto Maravilha busca estabelecer relações vivas entre obras de arte e as paisagens que definem o imaginário do Rio. Levar “Parênteses” ao Aterro é dar continuidade a esse propósito em uma nova escala: a obra, que nasceu em diálogo com o Pão de Açúcar, passa a enquadrá-lo a partir de um dos espaços públicos mais frequentados da cidade. É uma forma de ampliar o acesso à arte e de celebrar a potência dessa paisagem, que reúne natureza, projeto urbano, memória e vida coletiva — afirma Fabio Szwarcwald, idealizador da iniciativa.
Força-tarefa para descida da obra
A descida do monumento do Pão de Açúcar ocorreu em dezembro do ano passado e exigiu uma força-tarefa, incluindo seis homens, uma talha, um carrinho e diversa outras ferramentas. Foi necessário o uso de uma talha para içar as seis peças que compõem a obra. As peças foram transportadas morro abaixo no bondinho de carga. A operação durou cerca de 4h30. Desde então, estava num galpão em Benfica, Zona Norte do Rio.
— No Pão de Açúcar, “Parênteses” convidava o público a enquadrar a paisagem a partir do alto. Agora, no Aterro, a obra ganha outra escala de relação com a cidade: ela permite olhar para o Pão de Açúcar desde baixo, tendo a Baía de Guanabara e o horizonte como campo de visão. A escultura nunca se impôs como um monumento; ela funciona como uma moldura, um dispositivo de enquadramento que convida cada pessoa a escolher o que deseja colocar entre parênteses — observa o curador Ulisses Carrilho.
Idealizado por Lota Macedo Soares, com paisagismo de Roberto Burle Marx e arquitetura de Affonso Eduardo Reidy, o Aterro constitui uma das mais importantes paisagens modernas do país e um espaço decisivo da vida pública carioca. Entre a Baía de Guanabara, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a Marina da Glória, o parque acolheu, ao longo de sua história, experiências fundamentais da arte brasileira, como o happening Apocalipopótese, proposto por Hélio Oiticica no final dos anos 1960, e os Domingos da Criação, do crítico Frederico Morais, em 1971. É nesse território de convivência, lazer, esporte, cultura e intensa circulação cotidiana de moradores e turistas, que Parênteses passa a se inserir.
Escultura de 700kg desce o Pão de Açúcar e ocupa o Aterro do Flamengo em celebração ao aniversário do parque
