Uma revisão da matriz curricular dos cursos de Medicina do Idomed, implementada no meio do ano de 2026, busca mudar a forma como doenças, diagnósticos e tratamentos são apresentados aos estudantes. A proposta é ampliar a abordagem para além de referências predominantemente brancas e considerar, nas aulas, diferenças biológicas entre grupos étnicos. A mudança faz parte do Mediversidade, programa criado em 2024 pelo Instituto Yduqs.
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— Eu tenho que dar uma aula sobre fisiopatologia da hipertensão arterial ou tratamento da hipertensão arterial e dizer: “No negro eu trato assim; no asiático, de uma outra forma; no indígena, de uma terceira; e no branco, de outra” — afirma Neto.
Um dos exemplos usados pelo instituto é o ensino sobre a hipertensão arterial. Segundo Silvio Pessanha Neto, CEO do Idomed, a doença pode apresentar mecanismos diferentes em cada população e, por isso, o conteúdo não deve ser ensinado tomando-se como referência apenas um grupo, como costuma acontecer.
A revisão começou pelo currículo já existente. A instituição afirma ter identificado conteúdos nos quais a abordagem da biologia humana estava concentrada em referências brancas e passou a inserir novos conteúdos nos planos de ensino. Professores de diferentes disciplinas também participaram da reformulação dos planos de aula.
Curso de letramento racial
De acordo com o CEO, mais de 50% dos conteúdos do currículo anterior já foram revisitados. Paralelamente, um novo entrou em vigor no início deste semestre. Segundo ele, a nova matriz foi construída integralmente a partir da proposta de diversidade e já está adaptada para que os conteúdos sejam discutidos considerando diferentes etnias e condições biológicas. A substituição do currículo antigo será gradual.
A mudança também envolve a preparação dos docentes. O Núcleo de Aperfeiçoamento Pedagógico e Experiência Docente (Naped) desenvolveu trilhas de formação, incluindo um curso de letramento racial relacionado à saúde. A proposta chegou também aos laboratórios de simulação. O instituto passou a contar com modelos de diferentes tons de pele e biotipos.
São simuladores usados em treinamentos como atendimento a infartos, AVCs e procedimentos ginecológicos. Nas duas unidades da faculdade, no Città Office Mall, na Barra da Tijuca, e no Centro, o programa oferece bolsas sociais integrais para negros, indígenas e pessoas com deficiência. Atualmente, o projeto tem 70 alunos ativos.
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Outra frente é o estímulo à produção científica sobre diversidade. Um fundo filantrópico mantido pelo Instituto Yduqs financia diferentes iniciativas, entre elas programas de pesquisa que selecionam projetos relacionados à equidade em saúde.
— O Mediversidade nasceu da convicção de que uma medicina mais inclusiva começa na formação de quem vai cuidar das pessoas — afirma Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do Grupo Yduqs.
Escolas ampliam ações
Santo Inácio. Afroteca reúne livros de autores afro-brasileiros e africanos
Divulgação/Colégio Santo Inácio
As escolas também têm ampliado ações de educação antirracista, com iniciativas que incluem formação de professores, revisão de materiais, literatura, atividades culturais e protocolos para situações de discriminação.
No Colégio Santo Inácio, em Botafogo, o trabalho inclui a Afroteca, espaço da Biblioteca Central com centenas de obras de autores afro-brasileiros e africanos. O conteúdo também aparece em atividades como a “Que África é essa?”, do 6º ano, que aborda conhecimentos e invenções de origem africana; em rodas de contos africanos e oficinas de maculelê, capoeira e samba de roda; e na eletiva “Brasil que canta e resiste”, do ensino médio, que discute raça, gênero e privilégios da branquitude a partir da produção de artistas negros. Este mês, o colégio lançou uma Política de Educação Antirracista, com diretrizes para revisão do currículo, formação continuada e protocolos de prevenção, apuração e acolhimento em casos de racismo ou injúria racial.
— Ser antirracista é ser fiel à nossa missão inaciana de formar pessoas conscientes, compassivas e comprometidas em agir contra as injustiças que ferem a dignidade humana — afirma o diretor-geral, padre Adilson Silva.
No Colégio e Curso pH, o Projeto de Educação Decolonial Antirracista reúne rodas de conversa, oficinas, debates, produção autoral, análise de conteúdos midiáticos, encontros com autores negros e releituras de marcos históricos. A escola também mantém um curso específico para alunos do ensino fundamental II. As ações são articuladas ao programa de Convivência Ética e a protocolos para situações de bullying e discriminação, com registro, acompanhamento e, quando necessário, participação das famílias.
Global Tree. Bonecas têm diferentes tons de pele e tipos de cabelo
Divulgação/Global Tree
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Na educação infantil, a proposta aparece desde os primeiros meses de vida. Na Global Tree, em Botafogo, atividades com bonecas Abayomi, livros, cantigas e narração de histórias trabalham representatividade e diversidade racial. As bonecas, confeccionadas com diferentes tons de pele e tipos de cabelo, foram introduzidas pela professora Janaina Gomes após uma formação com a escritora e educadora Sonia Rosa.
— Se, na escola, a criança preta só vê bonecas brancas, pode crescer sem se sentir representada. Já para as crianças brancas, o contato com essa diversidade desde cedo favorece o respeito e a empatia — afirma a diretora Ana Balieiro.
Na rede municipal, nove escolas da Zona Sul participam, em 2026, do projeto Lá Vem História, da ONG Parceiros da Educação Rio, que trabalha a história e a cultura afro-brasileira e dos povos originários por meio de formação de professores, rodas de conversa, ampliação de acervos e atividades culturais. No primeiro semestre, cerca de 160 livros foram distribuídos e 256 crianças participaram das ações.
*Esta matéria reúne textos das edições especiais de Educação do GLOBO-Zona Sul, publicado em 26/09, e do GLOBO-Barra, datado de 27/09
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Faculdade de Medicina muda currículo para contemplar diversidade de populações
