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setembro 29, 2026
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Faculdade de Medicina muda currículo para contemplar diversidade de populações

Por · setembro 29, 2026
Faculdade de Medicina muda currículo para contemplar diversidade de populações


Uma revisão da matriz curricular dos cursos de Medicina do Idomed, implementada no meio do ano de 2026, busca mudar a forma como doenças, diagnósticos e tratamentos são apresentados aos estudantes. A proposta é ampliar a abordagem para além de referências predominantemente brancas e considerar, nas aulas, diferenças biológicas entre grupos étnicos. A mudança faz parte do Mediversidade, programa criado em 2024 pelo Instituto Yduqs.
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— Eu tenho que dar uma aula sobre fisiopatologia da hipertensão arterial ou tratamento da hipertensão arterial e dizer: “No negro eu trato assim; no asiático, de uma outra forma; no indígena, de uma terceira; e no branco, de outra” — afirma Neto.
Um dos exemplos usados pelo instituto é o ensino sobre a hipertensão arterial. Segundo Silvio Pessanha Neto, CEO do Idomed, a doença pode apresentar mecanismos diferentes em cada população e, por isso, o conteúdo não deve ser ensinado tomando-se como referência apenas um grupo, como costuma acontecer.
A revisão começou pelo currículo já existente. A instituição afirma ter identificado conteúdos nos quais a abordagem da biologia humana estava concentrada em referências brancas e passou a inserir novos conteúdos nos planos de ensino. Professores de diferentes disciplinas também participaram da reformulação dos planos de aula.
Curso de letramento racial
De acordo com o CEO, mais de 50% dos conteúdos do currículo anterior já foram revisitados. Paralelamente, um novo entrou em vigor no início deste semestre. Segundo ele, a nova matriz foi construída integralmente a partir da proposta de diversidade e já está adaptada para que os conteúdos sejam discutidos considerando diferentes etnias e condições biológicas. A substituição do currículo antigo será gradual.
A mudança também envolve a preparação dos docentes. O Núcleo de Aperfeiçoamento Pedagógico e Experiência Docente (Naped) desenvolveu trilhas de formação, incluindo um curso de letramento racial relacionado à saúde. A proposta chegou também aos laboratórios de simulação. O instituto passou a contar com modelos de diferentes tons de pele e biotipos.
São simuladores usados em treinamentos como atendimento a infartos, AVCs e procedimentos ginecológicos. Nas duas unidades da faculdade, no Città Office Mall, na Barra da Tijuca, e no Centro, o programa oferece bolsas sociais integrais para negros, indígenas e pessoas com deficiência. Atualmente, o projeto tem 70 alunos ativos.
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Outra frente é o estímulo à produção científica sobre diversidade. Um fundo filantrópico mantido pelo Instituto Yduqs financia diferentes iniciativas, entre elas programas de pesquisa que selecionam projetos relacionados à equidade em saúde.
— O Mediversidade nasceu da convicção de que uma medicina mais inclusiva começa na formação de quem vai cuidar das pessoas — afirma Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do Grupo Yduqs.
Escolas ampliam ações
Santo Inácio. Afroteca reúne livros de autores afro-brasileiros e africanos
Divulgação/Colégio Santo Inácio
As escolas também têm ampliado ações de educação antirracista, com iniciativas que incluem formação de professores, revisão de materiais, literatura, atividades culturais e protocolos para situações de discriminação.
No Colégio Santo Inácio, em Botafogo, o trabalho inclui a Afroteca, espaço da Biblioteca Central com centenas de obras de autores afro-brasileiros e africanos. O conteúdo também aparece em atividades como a “Que África é essa?”, do 6º ano, que aborda conhecimentos e invenções de origem africana; em rodas de contos africanos e oficinas de maculelê, capoeira e samba de roda; e na eletiva “Brasil que canta e resiste”, do ensino médio, que discute raça, gênero e privilégios da branquitude a partir da produção de artistas negros. Este mês, o colégio lançou uma Política de Educação Antirracista, com diretrizes para revisão do currículo, formação continuada e protocolos de prevenção, apuração e acolhimento em casos de racismo ou injúria racial.
— Ser antirracista é ser fiel à nossa missão inaciana de formar pessoas conscientes, compassivas e comprometidas em agir contra as injustiças que ferem a dignidade humana — afirma o diretor-geral, padre Adilson Silva.
No Colégio e Curso pH, o Projeto de Educação Decolonial Antirracista reúne rodas de conversa, oficinas, debates, produção autoral, análise de conteúdos midiáticos, encontros com autores negros e releituras de marcos históricos. A escola também mantém um curso específico para alunos do ensino fundamental II. As ações são articuladas ao programa de Convivência Ética e a protocolos para situações de bullying e discriminação, com registro, acompanhamento e, quando necessário, participação das famílias.
Global Tree. Bonecas têm diferentes tons de pele e tipos de cabelo
Divulgação/Global Tree
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Na educação infantil, a proposta aparece desde os primeiros meses de vida. Na Global Tree, em Botafogo, atividades com bonecas Abayomi, livros, cantigas e narração de histórias trabalham representatividade e diversidade racial. As bonecas, confeccionadas com diferentes tons de pele e tipos de cabelo, foram introduzidas pela professora Janaina Gomes após uma formação com a escritora e educadora Sonia Rosa.
— Se, na escola, a criança preta só vê bonecas brancas, pode crescer sem se sentir representada. Já para as crianças brancas, o contato com essa diversidade desde cedo favorece o respeito e a empatia — afirma a diretora Ana Balieiro.
Na rede municipal, nove escolas da Zona Sul participam, em 2026, do projeto Lá Vem História, da ONG Parceiros da Educação Rio, que trabalha a história e a cultura afro-brasileira e dos povos originários por meio de formação de professores, rodas de conversa, ampliação de acervos e atividades culturais. No primeiro semestre, cerca de 160 livros foram distribuídos e 256 crianças participaram das ações.
*Esta matéria reúne textos das edições especiais de Educação do GLOBO-Zona Sul, publicado em 26/09, e do GLOBO-Barra, datado de 27/09
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