Ricardo Salles (Novo) desistiu de concorrer ao Senado em São Paulo, para apoiar os nomes da chapa liderada por Tarcísio de Freitas (Republicanos): Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). A decisão de se aliar a Prado destoa da posição que o deputado do Novo tinha poucos dias atrás. Salles fez uma campanha amplamente voltada a críticas ao postulante do PL, a quem já chamou de “integrante do Centrão que gosta de fazer esquema”, “intruso da direita” e acusou de “não ser muito instruído”.
Salles anunciou a desistência nesta sexta-feira, ao lado de Tarcísio, Derrite e Prado. Apesar de não citar abertamente o nome de Prado, o ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro (PL) justificou que sua saída da disputa era “em prol desse bem maior” para “derrotar o PT”. Ele foi um dos integrantes da direita mais explicitamente contrários à decisão do PL de lançar Prado candidato ao Senado, após Eduardo Bolsonaro (PL), que disputaria o cargo, se mudar para os Estados Unidos.
A decisão de se aliar agora à Prado contradiz o que ele mesmo falou meses atrás. Horas após o anúncio, Salles chegou a apagar alguns vídeos mais críticos a Prado de seu Instagram.
Em maio, Salles afirmou que não havia “nenhuma hipótese” de ele retirar a candidatura “para prestigiar o filhote de Valdemar (da Costa Neto)”. “Eu vou seguir com a minha candidatura até o fim. O Novo não é o PL, não é mercado, não vão conseguir comprar o Novo para me tirar da legenda”, disse em entrevista ao SBT News.
Na época, a indicação do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para a disputa gerou um atrito público entre Eduardo e Salles, e os dois fizeram críticas duras um ao outro em vídeos no YouTube e no Instagram — o deputado do Novo chamou Eduardo de “burro” e o acusou de ter vendido a vaga da chapa, enquanto o filho de Jair Bolsonaro o chamou de “biruta de vento político”.
Em junho, Salles disse que “prevaleceu o candidato do Valdemar”, que é “um candidato do Centrão que está querendo usar a direita para se eleger”. Esse foi o tom adotado durante toda a sua campanha: Salles sempre disse que Valdemar era “do Centrão”, criticou sua “má conduta” no partido, disse que ele era “corrupto”, e sempre associou André do Prado a ele. Em julho, em entrevista ao UOL, ele afirmou que “André do Prado é o intruso da direita” e está “se fingindo de direita para capturar os votos”.
Em agosto, publicou um vídeo em seu Instagram dizendo que André “nunca foi conservador e direita coisa nenhuma” e que ele apoiou Dilma Rousseff, Aloízio Mercadante, fez campanha para o Márcio França e se juntou ao João Doria no “fecha tudo e a economia a gente vê depois, contrariando o que defendia o presidente Bolsonaro na época”, referindo-se às medidas adotadas pelo então governador tucano em São Paulo na época da pandemia da Covid-19.
Com o início oficial da campanha, os dois trocaram acusações e ofensas durante debates, e algumas publicações feitas por Salles nas redes sociais viraram alvo de representações de Prado na Justiça Eleitoral. Durante o primeiro debate televisivo entre senadores, realizado pela Band em 9 de setembro, o candidato do Novo mirou o oponente do PL desde os primeiros minutos, afirmando que ele apoiou o governo de Dilma Rousseff (PT) em 2010 e em 2014, e que o PL fez “esquema de corrupção no governo Lula (PT)”.
“Qual credencial de direita você tem?”, indagou o deputado federal a Prado que, por sua vez, respondeu que “sempre esteve contra o PT” e atrelou Salles a Geraldo Alckmin (PSB), hoje vice-presidente da República e candidato à reeleição na chapa com Lula. Salles foi secretário de Meio Ambiente na gestão Alckmin em São Paulo.
Essas críticas se repetiram em outros debates, entrevistas e vídeos publicados nas redes. Durante o debate realizado pelo UOL e pela Folha de S. Paulo, na semana passada, Salles chegou a dizer que Prado não tinha “muita instrução” após o deputado estadual insinuar que o adversário não havia assinado um pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), porque ele é relator de um inquérito que apura um esquema de facilitação de contrabando florestal.
— O André tem repetido essa história como se eu tivesse refém do Alexandre de Moraes, ele não é muito instruído, não conhece essa questão jurídica — falou.
No mesmo evento, Salles falou que a “relação do centrão é umbilical, ninguém solta a mão de ninguém” e disse que Prado era “pupilo de Valdemar e integrante do centrão, que gosta de fazer esquema”.
Nos bastidores, Tarcísio foi o principal articulador dessa medida, porque uma eventual divisão de votos entre Prado e Salles poderia beneficiar alguma das candidatas da chapa rival, Marina Silva (Rede) ou Simone Tebet (PSB), que estão tecnicamente empatadas com os integrantes da chapa do governador, segundo as pesquisas mais recentes.
Marina e Tebet reagiram à decisão do rival com ironia e críticas. A candidata do PSB falou, em publicação nas redes, que Salles “se rendeu ao centrão”, enquanto Marina classificou sua desistência como “desrespeito aos eleitores”.
'Não é muito instruído', 'intruso da direita': Salles usou campanha para atacar Prado, que agora apoia
