Abrir o Instagram por alguns minutos pode significar entrar em contato com uma sequência de vidas cuidadosamente editadas. Virginia Fonseca aparece treinando, viajando, cuidando da aparência e conciliando diferentes negócios. Bianca Andrade compartilha momentos relacionados a beleza, maternidade e carreira. Em seguida, surgem outras influenciadoras mostrando viagens, exercícios, casas, compras, tratamentos estéticos e diferentes aspectos da rotina.
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Para quem está do outro lado da tela, essa sucessão de imagens pode produzir uma comparação que vai além da aparência. Corpo, carreira, dinheiro, relacionamento, maternidade e até a maneira de organizar o dia passam a ser referências para avaliar a própria vida. A questão não está necessariamente no conteúdo de um perfil específico, mas na frequência com que esses recortes são consumidos e no lugar que ocupam como parâmetro.
“Nas redes sociais, somos expostos repetidamente a versões selecionadas da vida das outras pessoas. Mesmo sabendo racionalmente que aquilo é um recorte, emocionalmente podemos começar a utilizá-lo como parâmetro. Quando essa comparação é frequente, algumas pessoas passam a perceber a própria aparência, carreira, relacionamento ou rotina sempre pela perspectiva daquilo que estaria faltando”, explica a psiquiatra Camilla Nicolucci.
Uma comparação que não se limita ao corpo
A comparação nas redes também mudou de escala. Em poucos minutos, uma pessoa pode observar o corpo de uma influenciadora, a carreira de outra, a casa de uma terceira, as viagens de uma quarta e a relação familiar de uma quinta. O resultado é uma espécie de referência formada a partir de diferentes perfis, enquanto o ponto de comparação continua sendo a própria vida.
“Comparar-se é um comportamento humano. O que muda nas redes sociais é a frequência e a quantidade de pessoas às quais somos expostos. Em poucos minutos, alguém pode comparar o próprio corpo com uma pessoa, a carreira com outra, o casamento com uma terceira e o padrão financeiro com uma quarta. É uma competição impossível porque estamos reunindo o melhor de várias vidas e colocando tudo contra uma única vida: a nossa”, afirma o psiquiatra Ciro Jorge.
Outro aspecto é que, para muitas influenciadoras, aquilo que aparece no feed também faz parte da atividade profissional. Produção de conteúdo, beleza, viagens, moda, exercícios e exposição de momentos pessoais podem estar relacionados a contratos, campanhas e equipes que ajudam a construir aquela imagem.
Essa estrutura, porém, nem sempre fica evidente para quem acompanha o resultado final. “O risco aparece quando uma pessoa começa a acreditar que deveria reproduzir aquele padrão com os recursos, o tempo e a realidade que possui. A comparação deixa de considerar contexto. E, quando a conta não fecha, a conclusão pode ser injustamente direcionada para si mesma: ‘eu não consigo’, ‘não sou disciplinada’, ‘não sou bonita o suficiente'”, diz Camilla.
Quando a inspiração deixa de ser positiva
Seguir alguém nas redes pode despertar interesse por um treino, uma viagem, uma receita ou uma maneira diferente de organizar a rotina. A questão muda quando o conteúdo passa a produzir, de forma recorrente, insatisfação ou sensação de inadequação.
“Se determinados conteúdos fazem com que você saia repetidamente das redes mais ansiosa, insatisfeita com o corpo, inferiorizada ou com a sensação de que sua vida nunca é suficiente, isso merece atenção. A maneira como nos sentimos depois de consumir um conteúdo também é uma informação”, avalia Ciro.
Nesse contexto, rever quem aparece no feed pode ser uma forma de ajustar o consumo de redes sociais. Silenciar perfis, deixar de seguir determinadas contas ou reduzir o tempo de exposição são possibilidades, sem que isso implique transformar influenciadoras em responsáveis pelo desconforto de quem as acompanha.
“Não precisamos demonizar a internet. Ela também oferece identificação, informação, entretenimento e conexão. Mas escolher conscientemente aquilo que ocupa nosso campo de atenção pode ser uma forma de cuidado. A pergunta talvez não seja apenas ‘quem eu gosto de seguir?’, mas ‘como eu fico depois de seguir essa pessoa?'”, pontua Camilla.
A comparação faz parte do comportamento humano, mas as redes ampliaram a quantidade de referências disponíveis em um único espaço. Observar como esse conteúdo interfere na percepção sobre o próprio corpo, rotina e conquistas pode ajudar a distinguir uma inspiração pontual de um padrão que passa a produzir insatisfação.
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