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outubro 13, 2026
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Por que parte dos jovens escolhe a direita? A juventude cansada e a promessa de mudança

Por · outubro 13, 2026
Por que parte dos jovens escolhe a direita? A juventude cansada e a promessa de mudança


Enquanto Lula enfrenta dificuldades para conquistar parte do eleitorado jovem, universitários vão às ruas em sua defesa. Entre a insatisfação com o presente, a crença na meritocracia e a falta de memória vivida sobre o passado político do país, diferentes juventudes disputam os rumos das eleições de 2026.
A pesquisa divulgada no sábado pelo Ipespe/Abrapel revela a dificuldade de Lula e de seus apoiadores para conquistar parte do eleitorado jovem. Ao mesmo tempo, manifestações em diferentes cidades brasileiras levaram universitários às ruas em defesa do presidente e contra Flávio Bolsonaro. Enquanto alguns jovens demonstram resistência a Lula, outros se mobilizam para defendê-lo.
Esse contraste mostra que não existe uma juventude politicamente homogênea. Valores, expectativas, experiências e formas de participação variam, e essas diferenças não podem ser compreendidas apenas pelas escolhas eleitorais.
Afinal, o que está acontecendo com as juventudes brasileiras? Por que alguns jovens encontram na direita a promessa de mudança, enquanto outros veem na mobilização política e na defesa de Lula um caminho para o futuro?
A geração cansada
Em conversas com jovens que se identificam com a direita, uma palavra aparece com frequência: mudança. Alguns conhecem Flávio Bolsonaro e demonstram disposição para apoiá-lo, mas nem sempre apresentam uma identificação consistente com sua trajetória política ou com um programa de governo. O que parece mobilizá-los, em determinados casos, é a expectativa de romper com o presente.
Um desses jovens resumiu sua disposição de maneira inquietante: se o país piorar, “parte pra guerra civil, porque pior não fica”. A frase não pode ser tomada como representativa de uma geração inteira, mas merece atenção. Ela expressa uma percepção de que a situação atual chegou a um limite e de que uma ruptura, mesmo com consequências imprevisíveis, poderia ser aceitável diante da insatisfação com o presente.
É nesse contexto que surge outra expressão: “geração cansada”. Cansada de quê? Para muitos jovens, a resposta pode estar na dificuldade de conquistar independência financeira, no trabalho precário, na insegurança sobre o futuro e na distância entre as promessas de sucesso e as oportunidades concretas.
A sensação de que é preciso estudar, trabalhar, empreender e competir continuamente, sem garantia de ascensão social, pode alimentar frustração e descrença.
O problema começa quando essa insatisfação se transforma na convicção de que qualquer mudança será necessariamente melhor do que a situação existente. O desejo de renovação é legítimo. Mas a disposição de romper com tudo, sem avaliar os riscos e as consequências, pode abrir espaço para soluções que prometem respostas rápidas a problemas complexos.
O empreendedor de si mesmo
Parte dos jovens com quem converso acredita no empreendedorismo e na meritocracia. Vê-se como responsável pelo próprio destino e tende a interpretar o sucesso como resultado do esforço individual. Nessa visão de mundo, o fracasso também pode ser atribuído à falta de empenho, disciplina ou capacidade de cada um.
Essa perspectiva não é exclusiva da direita, nem todos os jovens que empreendem pensam dessa maneira. O empreendedorismo pode representar uma oportunidade real de autonomia, sobretudo em um mercado de trabalho marcado pela instabilidade.
A questão é compreender o que acontece quando a valorização do esforço individual obscurece as condições sociais e econômicas que limitam as oportunidades.
Se cada pessoa é considerada responsável pelo próprio sucesso, os problemas coletivos podem passar a ser vistos como falhas individuais. Desemprego, baixos rendimentos e dificuldades para construir uma vida independente deixam de ser relacionados também à estrutura econômica, às políticas públicas e às desigualdades sociais.
Nesse cenário, a política pode ser interpretada de maneira simplificada: os problemas são culpa de quem governa, e a substituição dos ocupantes do poder seria suficiente para resolvê-los.
Em algumas conversas, jovens atribuem ao governo atual uma responsabilidade que se estenderia por 16 anos, reunindo diferentes administrações e conjunturas políticas em uma única narrativa.
A insatisfação com governos é parte da democracia. O desafio analítico é entender como ela se transforma em rejeição mais ampla às instituições, aos partidos tradicionais e às próprias regras do jogo democrático.
Para alguns jovens, a direita aparece como alternativa porque promete não apenas mudar o governo, mas romper com aquilo que identificam como um sistema incapaz de oferecer respostas.
O passado que não foi vivido
Há outro aspecto importante nessa discussão: a relação entre juventude e memória política. Quem nasceu nos anos 2000 não viveu a ditadura militar, a mobilização pelas Diretas Já ou os primeiros anos da redemocratização. Também não experimentou diretamente as disputas políticas que marcaram a construção das instituições democráticas brasileiras.
Isso não significa que os jovens desconheçam a história do país. A ausência de memória vivida, porém, torna ainda mais importante a maneira como o passado é transmitido pela escola, pela família, pelos meios de comunicação e, hoje, pelas redes sociais.
Quando essa transmissão falha ou perde espaço para narrativas simplificadas, acontecimentos históricos podem parecer distantes, abstratos ou irrelevantes para os problemas do presente. A democracia passa a ser percebida menos como uma conquista histórica, construída em meio a conflitos e sacrifícios, e mais como uma estrutura que deveria simplesmente funcionar e que, quando decepciona, pode ser descartada.
A memória política não determina o comportamento eleitoral. Conhecer a história não conduz automaticamente alguém à esquerda, assim como a falta de experiência direta com períodos autoritários não leva necessariamente à direita. Mas compreender o passado permite avaliar melhor o significado das rupturas, os custos da perda de direitos e os riscos de tratar a democracia como algo garantido.
É preciso perguntar não apenas o que os jovens sabem sobre a história brasileira, mas também quais versões desse passado chegam até eles e como são relacionadas às suas experiências atuais.
O que a ditadura, a redemocratização e as crises políticas significam para quem não viveu esses acontecimentos? E que referências ajudam essa geração a distinguir uma promessa de renovação de uma proposta que pode comprometer direitos e instituições?
Uma inquietação antiga
A preocupação com o afastamento dos jovens da política não começou agora. Uma pesquisa realizada pelo Grupo Opinião Pública da UFMG e pelo Ipespe durante a eleição presidencial de 2010, em Belo Horizonte, já apontava questões relevantes sobre a relação de parte dos eleitores com a participação política, o associativismo e a democracia representativa.
Entre os resultados recordados desse levantamento estavam sinais de enfraquecimento do associativismo, pouco interesse pela política, insatisfação com a representação e apoio à obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas.
Esses dados precisam ser retomados a partir do relatório original e das perguntas efetivamente utilizadas, antes de qualquer comparação mais precisa com o cenário atual. Ainda assim, o levantamento oferece um ponto de partida para uma questão que permanece relevante: como se formam as atitudes políticas dos jovens e que experiências contribuem para aproximá-los ou afastá-los das instituições democráticas?
Não seria correto estabelecer uma linha direta entre os jovens entrevistados em 2010 e os eleitores de 2026. São contextos distintos, atravessados por transformações econômicas, tecnológicas, culturais e políticas profundas.
O crescimento das redes sociais, a circulação de conteúdos políticos fora dos meios tradicionais, as mudanças no mercado de trabalho e a intensificação da polarização alteraram as formas de acesso à informação e de participação pública.
A comparação histórica, entretanto, ajuda a evitar que fenômenos antigos sejam tratados como novidades absolutas. O desinteresse pela política, a insatisfação com a representação e a busca por alternativas não convencionais já faziam parte das preocupações dos jovens pesquisamos.
A pergunta é como essas disposições se transformaram e por que, em determinados grupos, passaram a encontrar expressão em discursos de ruptura.
Não existe uma única juventude
A dificuldade de Lula para conquistar parte do eleitorado jovem e, simultaneamente, a mobilização de universitários em sua defesa mostram os limites de qualquer interpretação que trate essa população como um bloco único.
Os jovens que vão às ruas defender Lula têm suas próprias motivações, assim como aqueles que se aproximam da direita. Entre eles há diferenças de classe, escolaridade, religião, inserção profissional, experiências familiares e acesso à informação.
Há também jovens que rejeitam ambos os campos políticos, que desconfiam dos partidos ou que se interessam pela política de maneira intermitente.
As manifestações universitárias demonstram que a participação política continua mobilizando parte dessa geração. Já a dificuldade de atrair outros segmentos indica que o apoio não pode ser presumido com base na idade, na escolaridade ou na experiência universitária.
É necessário investigar quais problemas cada grupo considera prioritários, como avalia os governos e que expectativas deposita nas alternativas disponíveis.
Também é importante não confundir voto na direita com adesão automática a todas as suas propostas. Um jovem pode votar em um candidato por rejeição ao governo, por insatisfação econômica, por valores conservadores, por identificação religiosa ou pela expectativa de renovação.
Essas motivações podem se combinar, mas não são equivalentes. Compreender o voto exige distinguir essas razões, em vez de atribuir a todos os eleitores uma única explicação.
O mesmo vale para os jovens que apoiam Lula. A mobilização em defesa do presidente pode estar associada à avaliação de políticas públicas, à identificação partidária, à defesa de direitos, à rejeição a Flávio Bolsonaro ou à percepção de riscos para a democracia. Não se deve presumir que todos compartilhem as mesmas prioridades.
A promessa e o custo da ruptura
A promessa de mudança tem força política porque responde a uma expectativa concreta: a de que a vida pode ser diferente. Para jovens que enfrentam dificuldades de inserção profissional, insegurança econômica e incerteza sobre o futuro, discursos que oferecem uma explicação simples para os problemas e apontam responsáveis identificáveis podem encontrar ressonância.
Mas a insatisfação não explica, por si só, a direção que cada eleitor escolhe. Ela pode levar à mobilização em defesa do governo, à adesão à oposição, ao afastamento da política ou à procura por alternativas. O que faz a diferença são as interpretações construídas sobre a realidade, as experiências de cada grupo e as respostas que parecem plausíveis.
Por isso, não basta perguntar por que parte dos jovens se afasta de Lula. É preciso compreender o que essa parcela espera da direita, quais problemas acredita que ela resolverá e como avalia os custos das soluções propostas.
Da mesma forma, é necessário entender o que mobiliza os jovens que defendem o presidente e quais expectativas depositam na continuidade de seu governo.
O problema não está em querer mudar. Está em supor que qualquer mudança produzirá necessariamente um resultado melhor, sem considerar as consequências das escolhas políticas.
A democracia permite substituir governos, contestar decisões e defender projetos diferentes. Mas depende também do reconhecimento de que as regras, os direitos e as instituições não são obstáculos dispensáveis quando os resultados desagradam.
A juventude brasileira não caminha em uma única direção. Entre a promessa de ruptura, a defesa das instituições, a insatisfação com os governos e a busca por oportunidades, existem trajetórias distintas e disputas ainda em curso.
Compreender essas diferenças exige escuta, pesquisa e atenção às condições concretas em que os jovens constroem suas expectativas.
Mais do que perguntar em quem os jovens vão votar, é preciso entender o que esperam da política, o que os decepciona e que futuro consideram possível. Essa é uma questão central não apenas para as eleições de 2026, mas para a capacidade da democracia brasileira de responder às demandas de uma geração que, por caminhos diferentes, procura um lugar no país que está sendo construído.
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
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