O presidente da França, Emmanuel Macron, condenou neste domingo a violência registrada nos protestos realizados na véspera em todo o país, apontando que “nada justifica” as cenas de barbárie, que dividiram espaço com marchas pacíficas contra o alto custo de vida. A declaração ocorre em um momento em que forças policiais ainda estão mobilizadas contra grupos violentos que voltaram a promover depredações pelo segundo dia seguido, após mais de 1,8 mil pessoas serem presas no sábado, e mais de 500 policiais, gendarmes e bombeiros ficaram feridos.
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Em Paris, lojistas varriam cacos de vidro logo cedo, e caminhões de lixo percorriam as avenidas para recolher os escombros, segundo a rede britânica BBC. Vitrines de grifes como Ralph Lauren, Gucci e Versace foram quebradas, e muitas fachadas amanheceram pichadas com frases como “taxar os ricos” e “comer os ricos”.
Os atos de sábado reuniram entre 550 mil pessoas, segundo as autoridades, e 800 mil, segundo a CGT, principal central sindical do país. Em Paris, onde a polícia contabilizou cerca de 110 mil manifestantes, foram detidas 855 pessoas, um número que a corporação classificou de “recorde”. Um manifestante morreu de ataque cardíaco durante a marcha na capital, informou a polícia de Paris, segundo o jornal britânico Guardian. Mais de 500 continuavam presas neste domingo, entre elas 171 menores de idade.
Protestos violentos contra o custo de vida deixam rastro de destruição na França
Um dos símbolos da destruição foi a prefeitura de Limoges, cidade no centro-oeste do país famosa por sua porcelana, um prédio do século XIX que ficou em grande parte destruído por um incêndio durante a madrugada. O prefeito local atribuiu o ataque a “uma horda selvagem”. Em Marselha, mascarados invadiram a sede do governo local e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa. Em Lyon, um escritório de turismo foi consumido pelas chamas.
incêndio que destruiu parte da prefeitura de Limoges
Melaine Payzal / AFP
“A República não cederá nada àqueles que procuram impor a desordem e a violência”, escreveu Nuñez no X. O ministro afirmou que “os danos materiais são consideráveis” e atribuiu a violência a milhares de manifestantes de “extrema esquerda” e a “criminosos que saquearam e vandalizaram” prédios em todo o país.
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A versão oficial, no entanto, é contestada. Durante os atos, líderes sindicais e manifestantes relataram agressões por parte da polícia, que usou gás lacrimogêneo e canhões de água contra a multidão. Em Paris, a BBC viu policiais da tropa de choque avançarem contra um grupo e atingirem várias pessoas com cassetetes.
Cerca de 1,5 mil lojas foram danificadas em todo o país, segundo Alexandre Bompard, presidente da Federação do Comércio e da Distribuição, que estimou à emissora LCI um prejuízo de “várias centenas de milhões de euros”.
O dono de uma loja de roupas perto da Praça da República, que pediu para não ser identificado, contou à BBC que viu pelas câmeras de segurança os saqueadores permanecerem no local por mais de uma hora e meia, sem que nenhum policial aparecesse. Para ele, os autores não eram manifestantes, mas pessoas que se aproveitaram dos protestos.
Os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon pediram uma reunião com o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, nos próximos dias. A vice-prefeita de Paris, Lamia El Aaraje, lamentou “um nível de violência que, creio, nunca tínhamos visto” na cidade.
Disputa política
A escalada das manifestações deu lugar a uma troca de farpas a seis meses da eleição presidencial. Lecornu responsabilizou diretamente o partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), acusando seus dirigentes de semear a desconfiança na polícia entre os estudantes ao longo da semana. Segundo o premier, informações de inteligência indicam que os primeiros agressores, que atacaram policiais e prédios públicos antes mesmo do início dos atos oficiais, eram da “ultraesquerda”.
Manifestantes marcham contra o custo de vida em Paris
Geoffroy Van Der Hasselt / AFP
— Por trás de tudo isso, há obviamente uma batalha política a travar. Também é hora de escolher um lado. Ou você está no campo da República, e portanto das forças da ordem, ou está do lado dos desordeiros — afirmou Lecornu, que disse que o país chegou ao “ponto sem volta”.
Contexto: Protestos contra o custo de vida na França mobilizam ao menos 550 mil pessoas; governo cita 1,2 mil detidos e 150 policiais feridos
O líder da LFI, Jean-Luc Mélenchon, que apoiou abertamente as mobilizações e tem chances de chegar ao segundo turno da eleição de 2027, devolveu a acusação. Nas redes sociais, afirmou que Lecornu é “responsável pelo caos”, por “incompetência ou por uma estratégia do pior para criar um partido da ordem que faça esquecer seu fracasso nas finanças públicas”. No sábado, Mélenchon já havia condenado os saques, com ressalvas: “Aqueles que compartilham nossa luta não têm nada a ver com a pilhagem, com o saque”.
A líder da extrema direita, Marine Le Pen, que lidera as pesquisas para a eleição presidencial, também culpou a “ultraesquerda”. Do outro lado, a vice-prefeita socialista de Paris acusou o partido de Le Pen, o Reagrupamento Nacional, de alimentar as tensões em torno dos protestos para impulsionar a candidatura presidencial e de agir “como um bombeiro piromaníaco”.
Os organizadores esperavam que o sábado unisse os protestos estudantis que tomam o país desde setembro, por melhores condições nas escolas, a um movimento social mais amplo contra o custo de vida, impulsionado em parte pela guerra no Oriente Médio. A convocação, sob o lema “Amarelos e Jovens”, partiu do movimento dos Coletes Amarelos, que há oito anos protestou contra o aumento de um imposto sobre combustíveis.
Para Mujtaba Rahman, analista do centro de estudos Eurasia Group, o ato de sábado “não foi um protesto político no sentido estrito da palavra”, e “a maioria das verdadeiras manifestações contra os altos preços dos combustíveis e as deficiências do sistema educacional foi pacífica”. Segundo ele, “a violência veio de um setor marginal da extrema esquerda”, enquanto os saques “foram obra de gangues oportunistas dos subúrbios empobrecidos”.
“Tudo isso é uma boa notícia para Marine Le Pen”, escreveu o analista no X. (Com AFP e NYT)
Presidente da França condena vandalismo em protestos pelo país: 'nada justifica'
