Quando olha ao redor, a confeiteira Daniela Luck, de 47 anos, sente que apenas ela não faz uso das canetas emagrecedoras. Mesmo perdendo peso — em um ano, mandou embora 10 quilos com alimentação regrada e exercícios —, há uma pressão de colegas para experimentar a medicação. “Aos 25, tive um câncer na tireoide e precisei tirá-la. Saí dos 55 para os 87 quilos. Sentia dores no joelho, então comecei a caminhar e a fazer ioga”, conta ela. Aos poucos e com força de vontade, chegou aos 77. “Mas parece que não fiz o suficiente. Já me sugeriram usar Mounjaro, e não quero ir por esse caminho. É um método drástico, a pele, os músculos, tudo precisa se reorganizar muito rápido.” Daniela também tem receio de ficar presa “para sempre” ao medicamento e sofrer com um possível efeito rebote. “É quase uma questão de resistência ter um corpo ‘normal’. Não desejo voltar ao que era aos 20 anos.”
Não é exagero dizer que quem não faz uso de qualquer medicação injetável para emagrecer está mesmo fora da bolha — há dez dias, o Governo Federal anunciou que as canetas emagrecedoras serão oferecidas de graça no Sistema Único de Saúde (SUS), mas a aprovação ainda depende de etapas. No ano passado, elas tiveram um boom de vendas no Brasil, segundo o Conselho Federal de Farmácia. A compra de produtos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro somou cerca de R$ 9 bilhões em importações. Foi um salto de 88% em relação a 2024. “Atendo muita gente que não tem indicação, mas quer tomar. Quando pessoas que já são magras começam a tomar e ficam supermagras, quem não usa se sente mesmo por fora”, explica a endocrinologista Karen DeMarca, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “Há mulheres acima dos 40 que praticam atividade física, têm taxas normais, mas querem chegar ao corpo dos 20 ou 30. É uma busca equivocada”, continua.
Não se trata, no entanto, de rechaçar a medicação. A ciência já comprovou os inúmeros benefícios para quem sofre com a obesidade e tentou, sem sucesso, perder peso de outras formas. “Embora não seja para todo mundo, a caneta é muito importante. Quanto mais tempo você convive com a obesidade, aumentam os fatores de risco, como problemas ortopédicos e gordura no fígado”, diz Karen.
Para a nutróloga Erica Stein, a indicação formal é para pessoas com índice de massa corporal (IMC) acima de 30, ou abaixo desse número, mas com comorbidades. “Alguns pacientes têm medo, ou não querem usar por questões financeiras, focando apenas na reeducação alimentar. Mas, para quem tem obesidade, é difícil mantê-la a longo prazo. O remédio ajuda você a se reeducar.”
Embora não demonize quem usa as canetas, a fotógrafa Ester Mendes, de 37 anos, diz ter conseguido se livrar do “efeito manada” no uso do Mounjaro. “Não quero perder o tesão pela vida. Por muito tempo me achei horrorosa, e estava três quilos acima do peso. Eu me enxergava assim”, comenta ela. Por enquanto, Ester acredita ter outras questões a serem trabalhadas: “Preciso resolver a preguiça de me exercitar”, observa.
Independentemente da escolha, o importante é ter acompanhamento médico ou nutricional para qualquer tratamento. O nutrólogo Rafael Pinto alia o uso das canetas a suplementos injetáveis que ajudam a acelerar o metabolismo e a queimar gordura. “É para o paciente continuar tendo energia e não perder massa magra”, explica. A informação, aqui, é a grande aliada. “Todo mundo sabe o que é Ozempic. Os medicamentos são revolucionários, mas o uso é feito com um tratamento. Seja qual for a medida, ela tem que ser pensada como uma mudança de vida. Pode ser que leve um tempo, mas é importante ter comprometimento”, finaliza Rafael.
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