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setembro 30, 2026
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Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu

Por · setembro 30, 2026
Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu


Escrevi na semana passada sobre o excesso de buzinas no trânsito carioca. Disse que, além de incômodo, é inútil: quanto mais você buzina, menos atenção você recebe. Pareceu-me um raciocínio pertinente, afinal tenho carro e moto.
Alguns leitores escreveram apoiando o que disse. O pessoal da seção de cartas aqui do jornal costuma ser muito gentil: mesmo quando discordam, o fazem com educação e delicadeza. Incentivado pelas suas boas maneiras, resolvi conferir os comentários sobre a coluna no X, o antigo Twitter. É ali que se encontram os haters mais furiosos, os robôs mais raivosos e o chorume mais tóxico. Resumindo, é a casa do capeta.
É algo que não faço há cinco anos, desde que uma coluna que escrevi sobre outro veículo de duas rodas fez sucesso entre os haters. Comentar a indumentária de alguns proprietários de tal veículo me rendeu todo tipo de ameaça. Quem sabe as pessoas estão mais tranquilas agora?
O simpático “Brehno” me dá as boas-vindas:
“Como o Globo deixa uma abominação dessa ser publicada. O que esse Leo Aversa tá falando é uma grande babaquice, com um monte de preconceito disfarçado de opinião. Bizarro alguém assim ter espaço na mídia para vomitar tanta merda”.
Fiquei comovido.
“Essa merda de matéria é a cara da burguesia carioca: fascista, elitista, sem senso e que só enxerga o próprio umbigo” acrescenta um tal “Jorge”. Me senti lisonjeado por representar alguém mais do que eu mesmo. “Narigudo”, obviamente um poeta parnasiano, também se manifesta: “Tá bom piranha ou viado que escreveu isso. Biiiiiii. Tem que buzinar senão o chifrudo vira sem olhar”.
Percebo que, como há cinco anos, a vida sexual de quem escreve é algo muito importante para os haters. Homofobia e misoginia continuam em alta, mas há um novo hit entre as ofensas: chifrudo e corno. Será que é fruto dos debates sobre a não monogamia?
“Rod” é um dos que aderiram à última moda: “Se não buzinar, os cornos que não olham pro espelho antes de trocar de faixa jogam todos ele (sic) pro alto. Aqui no Rio, o manual do corno diz (…)”
Nesse momento os comentaristas esquecem este colunista e passam a atacar uns aos outros. Fiquei aliviado: eles que lutem.
“23”, um pacato cidadão, também está do lado dos motoqueiros: “Até porque se eu não buzinar o filho da puta que está na esquerda (…) vai tomar no cu (…) O Globo não sabe de porra nenhuma”. Esse fez curso da Socila, com certeza.“Gabriel” defende o outro lado, por assim dizer: “Acidente de motociclista = vitória da sociedade, um a menos”.
“Burns Boladão” segue a mesma toada genocida: “Sempre que eu vejo um fdp desse quebrado no chão após um acidente fico feliz”. Ele termina a sua mensagem com um emoji de corações. Fofo, não?
Como essas, havia mais trezentas, fora os compartilhamentos. Alguns otimistas chegaram a pensar que a polarização se limitaria à política. Que ingênuos: tem ódio pra todo lado, em duas e quatro rodas. Acho que só Rivotril no Rio Guandu resolve.
O que me salvou da depressão completa foi uma última mensagem, reclamando do título da coluna: “O inferno do bi-bi-bi”. “Rachel” escreveu: “Logo no dia da visibilidade bissexual chamando a gente de inferno?”
Depois de algumas gargalhadas, fui conferir: 23 de setembro é mesmo o dia da visibilidade bissexual. Hummm.
“Rachel”, pelo amor de Deus, me diz que é só uma piada.

Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu