Nesta semana celebramos o Dia Nacional da Saúde de Adolescentes e Jovens, mas está difícil festejar. Num país desigual e polarizado, com um futuro repleto de ameaças da IA, guerra e crise climática, não é simples adolescer nesses tempos.
Os números mostram os desafios. As principais causas de morte entre jovens brasileiros são, em grande parte, evitáveis: homicídios, acidentes de trânsito e suicídio. A gravidez na adolescência caiu nos últimos anos, mas de forma desigual: em 2024, mais de 260 mil bebês nasceram de mães entre 15 e 19 anos, cerca de 191 mil deles filhos de adolescentes negras. Outros 12 mil nasceram de meninas de 10 a 14 anos, frutos de estupro de vulnerável — um retrato do gravíssimo quadro de violência contra meninas no Brasil. Muitos municípios ainda não atingem a meta de vacinação contra o HPV, que previne o câncer do colo do útero. Mais de 30% dos adolescentes têm sobrepeso e cerca de 9% vivem com obesidade, que antecipa o risco de doenças crônicas. Na saúde mental, segundo a pesquisa PeNSE/IBGE, três em cada dez relatam tristeza persistente, um quarto se sente abandonado e um terço diz já ter sentido vontade de se machucar (50% entre meninas). O excesso de telas amplifica os estragos causando isolamento, ansiedade, violência, desinformação, negacionismo e danos à atenção.
O Brasil não tem uma Política Nacional de Saúde Integral de Adolescentes. Há programas e diretrizes importantes, mas dispersos. Com isso, desperdiçamos muito da segunda grande janela de oportunidade da vida. Na adolescência o cérebro se reorganiza, amadurecem habilidades emocionais e sociais, e os hábitos da vida adulta se consolidam. A curiosidade, o desejo de autonomia e o espírito questionador movem a criatividade e os projetos de vida. Cabe a nós criar condições para esse potencial florescer.
Tudo começa em casa. Nenhuma política substitui a família. Diálogo, escuta verdadeira e presença afetuosa protegem. Converse, compartilhe experiências e procure entender o mundo deles. Combine regras e limites: a liberdade se constrói aos poucos, com orientação e confiança. Fique atento a mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar ou tristeza que não passa. Saúde mental, álcool e drogas, sexualidade e segurança digital precisam estar nas conversas de família.
A escola é outra peça-chave. O Programa Saúde na Escola aproxima educação e saúde em temas como violência, saúde mental, alimentação, direitos sexuais e reprodutivos e vacinação. Precisa chegar a todo o país, com qualidade.
O adolescente também precisa de consultas regulares, e não só quando adoece. O profissional de saúde precisa estar preparado e saber se comunicar. A consulta não se resume a vacinas, crescimento e desenvolvimento. Ela deve abranger a vida familiar, escolar e digital, e a saúde socioemocional. Um ponto que ainda gera dúvidas é o atendimento sem a presença dos pais. Ele é um direito do jovem, e fortalece a confiança entre adolescente, família e equipe de saúde. Quando sabe que pode falar com segurança, ele procura ajuda mais cedo. O sigilo só deve ser rompido quando há risco à sua integridade, como em casos de risco de suicídio, violência, abuso ou dependência química. Autonomia crescente do jovem e responsabilidade da família podem coexistir. Os serviços também precisam acolher as muitas adolescências brasileiras: urbanas e rurais, negras, indígenas, brancas, com deficiência, LGBTQIA+.
A adolescência transforma os jovens e desafia famílias, escolas e governos a repensar como cuidam e escutam. Uma política nacional para essa fase é um passo necessário. Investir no adolescente é investir no presente e no futuro do país. Aí, sim, teremos o que celebrar, nessa data e sempre.
*Colaborou Luciana Phebo, Chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil
Uma política nacional para o adolescente
