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setembro 27, 2026
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Veja onde moravam deputados federais da última legislatura antes de o Rio de Janeiro deixar de ser capital do país

Por · setembro 27, 2026


Vera Ribeiro foi eleita Miss Brasil em 1959, desbancado quatro finalistas, mas a coroação no Maracanãzinho foi debaixo de vaias. A carioca — segunda a ostentar o título até então — derrotou a pernambucana Dione Brito, favorita do público. Na época, o concurso ainda cercado pelo glamour despertava paixões. Nos cinemas, estreava “Orfeu do Carnaval”, do francês Marcel Camus. Ganhador da Palma de Ouro em Cannes, no mesmo ano, o filme baseado no espetáculo “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, foi rodado nos morros da cidade. A música seguia o compasso do samba-canção, que começava a ser substituído pela bossa nova. Era nesse clima que o Rio vivia seus últimos tempos como capital da República, o endereço do poder.
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Até então, parlamentares eleitos por seus estados se mudavam para a cidade e aqui se instalavam em imóveis pagos com o próprio dinheiro. Na época, não havia auxílio-moradia, conforme confirmou em entrevista ao GLOBO em 2015 o baiano Waldir Pires, aos 88 anos. Ele contou que, na ocasião, o aluguel de um apartamento na Rua Souza Lima, em Copacabana, consumia metade de seu salário. Uma caderneta publicada pela Câmara dos Deputados — que então funcionava no Palácio Tiradentes, na Praça Quinze — e encontrada num sebo pelo repórter revela os endereços de 336 deputados federais, incluindo os 326 eleitos e os suplentes em exercício em 1959, último ano do Rio como capital do país. Na capa, o nome da antiga dona da publicação escrito à mão: Célia. A transferência para Brasília se deu em abril de 1960.
Copacabana, o queridinho
Mais do que apontar onde os políticos moravam, a opção deles por determinado bairro ou região da cidade, retratada no livreto, reflete o perfil do que era o Rio nos anos dourados. A compilação dos dados mostra, por exemplo, que a maioria tinha predileção por Copacabana. Lá viviam 150 deputados. A década de 1950 foi marcada pelo crescimento econômico acelerado do país, impulsionando a construção de prédios de apartamentos. Nesse contexto, o bairro se consolidou com a imagem de região elegante e desejável.
— Todo mundo queria morar em Copacabana. Era o bairro da moda, da bossa nova, do cinema novo. As pessoas de influência da época viviam lá — aponta Marly Motta, historiadora e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com livros sobre o período, entre eles “Rio, Cidade-Capital”.
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Paulo Jorge Dias Elias, atual morador do apartamento onde viveu José Sarney
Domingos Peixoto
Um dos parlamentares daquela legislatura que optaram por Copacabana era José Sarney, ainda um jovem de 29 anos, em seu primeiro mandato como deputado eleito pela UDN. Ele havia ocupado uma cadeira na legislatura anterior como suplente. Na cidade, o maranhense, que depois foi senador, governador e presidente do país, tinha como endereço um confortável apartamento de 230 metros quadrados no quarto andar de um prédio da Rua Bolívar, hoje ocupado pelo economista aposentado Paulo Jorge Dias Elias, de 72 anos, e seu irmão Júlio, de 76.
— Quando me mudei o antigo porteiro me contou que o apartamento tinha pertencido ao Sarney. Também já fui procurado por uma pessoa que estava escrevendo um livro e sabia que ele havia morado aqui— disse o tijucano Paulo Elias, há 26 anos no local.
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Fachada do prédio charmoso da Rua Sá Ferreira, onde residiu Tenório Cavalcanti
Domingos Peixoto
Tenório Cavalcanti (UDN), outro deputado e morador do bairro, no mesmo período, vivia num charmoso prédio de dez andares na Rua Sá Ferreira. O imóvel, no nono andar, é atualmente alugado para quatro canadenses, segundo informações de um funcionário do edifício.
Mas o endereço mais conhecido do parlamentar, também chamado de “O homem da Capa Preta”, era uma casa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, considerada sua fortaleza. O historiador Nireu Cavalcanti, seu primo em terceiro grau, explica que Tenório possuía outros imóveis no Rio.
— Talvez tenha optado por Copacabana, por causa dos compromissões como deputado. Ele também tinha um jornal na cidade, “A Luta Democrática”. Muito provavelmente ficava aqui por conta do trabalho e nos fins de semana voltava para Caxias — especula Nireu.
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Um dos endereços mais nobres do bairro, o Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, era residência do deputado Mario Tamborindeguy (PSD). O imóvel no quinto andar até hoje está com a família, que possui mais dois apartamentos no prédio.
— Meu pai comprou o apartamento ainda na planta. Eu e minha irmã Narcisa nascemos lá. Aprendi a nadar no mar de Copacabana, que na época era manso, e na piscina do Copacabana Palace — relembra a ex-deputada estadual Alice Tamborindeguy.
Mario Tamborindeguy com a filha Alice no apartamento do Chopin
Álbum de família
Além de Copacabana, entre os bairros com mais parlamentares morando estavam o Centro (46), Flamengo (31), Botafogo (20), Ipanema (20), Laranjeiras (15) e Leblon (14). Fora do eixo Centro -Zona Sul havia uns poucos que moravam no Grajaú, Maracanã e Méier, além de Niterói.
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Marcos na entrada do prédio do Flamengo onde nasceu e onde morou Carlos Lacerda
Domingos Peixoto
Entre os moradores do Flamengo estão Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Antônio Carlos Magalhães. Jânio, que, segundo Ruy Castro, em seu livro “A noite do meu bem”, não se sentia à vontade no Rio, parece ter escolhido a dedo o apartamento para tornar mais prazerosa sua temporada na cidade como deputado federal. O imóvel na cobertura de um prédio de 12 andares na Avenida Rui Barbosa tem vista espetacular para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar.
Sigilo na agenda
Lacerda, outro morador ilustre do bairro, ocupava também uma cobertura, no 11º andar de um edifício na Praia do Flamengo, com vista para o Aterro. Em agosto de 1954, ele havia sofrido um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, onde morava antes. Talvez, por questão de segurança, isso explique o fato de o endereço dele ser o único incompleto da publicação da Câmara dos Deputados. O livreto não traz número do apartamento nem do telefone, ao contrário dos demais contatos.
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O servidor público Marcos Guimarães, de 65 anos, nasceu no mesmo prédio de Lacerda, onde vive até hoje. Suas memórias com o político, a quem conheceu pessoalmente são da época que era criança, e o deputado da legislatura iniciada em 1959 já tinha sido eleito governador da Guanabara.
— Os contatos com ele eram muito restritos. Era mais comum encontrá-lo na garagem do prédio. Nessas ocasiões brincava comigo, alisava meus cabelos e era gentil com meu pai — diz.
Bairros onde viviam os parlamentares em 1959
Editoria de Arte
Guimarães relata que a presença no prédio de um político importante que já sofrera um atentado, por vezes alterava a rotina do lugar. Segundo ele, não raro havia reforço na segurança e mesmo os moradores precisavam se identificar para conseguir acessar seus apartamentos nessas ocasiões.
O morador conta ainda que, durante sua passagem pelo prédio, Lacerda teria construído um “puxadinho” no apartamento, que gerou polêmica na época, por descaracterizar a cobertura. De acordo com o relato de Guimarães, ele ergueu um novo pavimento, onde montou escritório e se reunia com aliados, entre eles Sandra Cavalcanti, sua secretária de Serviços Sociais. Ele diz que presenciou, quando voltava da escola, a chegada de um oficial de justiça comunicando a Lacerda a cassação de seus direitos políticos, em 1968, já no governo militar. Guimarães lembra que, após sair do Flamengo, o político teria voltado para Copacabana, onde foi morar com uma filha. A cobertura foi vendida para a família Candido Mendes e hoje está fechada.
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Jânio Quadros morou na cobertura deste prédio, na Avenida Rui Barbosa
Domingos Peixoto
A ausência do pagamento do auxílio-moradia a parlamentares, que passou a ser efetuado após a mudança da capital para Brasília, talvez explique a opção de uns por hotéis do Centro, que, além de mais baratos, estavam mais perto do Legislativo. Ao menos oito residiam no antigo Hotel Serrador, na Cinelândia. Havia ainda os que se hospedavam no luxuoso Copacabana Palace e em seu anexo.
Colegas de apartamento
Tinha também quem preferisse dividir o mesmo teto com colegas. Jânio, eleito pelo Paraná, por exemplo, morava na mesma cobertura da Rui Barbosa com Emílio Carlos, da bancada paulista. Já o deputado baiano Antônio Carlos Magalhães (ACM) vivia no mesmo endereço que o conterrâneo Alaim Mello, no nono andar de um modesto prédio da Rua Marquês de Abrantes. A curiosidade aí é que o primeiro pertencia à UDN e o segundo ao PTB, partidos com rivalidade histórica.
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— Mas essa rivalidade variava muito de um estado para outro. No do Rio, por exemplo, a da UDN era com o PSD e no Distrito Federal (cidade do Rio) com o PTB. E mesmo que houvesse a inimizade, não envolvia o grau de polarização que existe hoje — explica a historiadora Marly Motta.
A historiadora conta também que, ao contrário do que acontece ainda hoje com Brasília, vista por muitos parlamentares como mero local de trabalho, ninguém queria ir embora do Rio. Esse comportamento é confirmado por Ruy Castro:
— No Rio capital, os parlamentares moravam na cidade com suas famílias, em apartamento próprio ou alugado, não fornecido pelo governo. Não tinha essa coisa de trabalhar de terça a quinta e voltar correndo para seus burgos (cidades ou feudos, no caso, eleitoral).
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Publicação oficial da Câmara dos Deputados com os endereços dos parlamentares de 1959
Reprodução
Índice da caderneta com os endereços e telefones do Legislativo em 1959
Reprodução
Castro acrescenta que por aqui, esses políticos agiam como os moradores locais:
— Eram cidadãos normais. Nos fins de semana, iam à praia, ao teatro e ao Maracanã. Eram abordados pelo povo, a quem davam satisfações. Quanto a Copacabana, não só eles, mas a classe média em peso estava descobrindo o bairro. Havia imóveis de todo preço, todo tipo de serviço, a então melhor praia do Rio e cem por cento de concentração da vida noturna.
No livro “A noite do meu bem”, Castro traça um perfil da boemia copacabanense, embalada por repertório de samba-canção. Em mais de 500 páginas, o escritor mostra como o fechamento dos cassinos, nos anos 1940, deixou uma legião de notívagos carentes. Os órfãos da jogatina encontraram abrigo e diversão nas dezenas de boates do bairro, que viveram um período de protagonismo.
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O charme e a vida noturna intensa de Copacabana tinham relação com a renovação da cidade a partir da descoberta do mar como lugar de lazer, acessível para a classe média a partir da urbanização dos bairros litorâneos.
— Copacabana era também um lugar de grande mistura de funções urbanas. Morava-se em apartamento, descia-se para a rua com tudo necessário a poucos passos e com o lazer ao lado — diz o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães.
Em uma cidade com tantos atrativos, a ida para Brasília suscitou resistência entre parlamentares. Projetos para adiar a mudança da capital chegaram a ser apreciados no Congresso, sem sucesso. Mesmo com a transferência, alguns continuaram por aqui em busca de uma ambiência política que ainda não havia no novo Distrito Federal. A mudança deles para o Planalto Central só se concluiu nos anos 1970, já no governo militar, segundo Marly Motta. No mesmo período, ganharam força os debates sobre a fusão da Guanabara com o Estado do Rio, que aconteceria mais de uma década depois, em 1975.
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