A mãe do migrante venezuelano Wilber Rafael Garcés Pérez, baleado no domingo por um agente do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) em Austin, no Texas, pediu que o filho seja submetido com urgência a uma cirurgia para a retirada da bala alojada perto de sua coluna. O venezuelano de 28 anos permanece sob custódia federal e, segundo sua família e sua advogada, apresenta dores e perda de movimentos no lado esquerdo do corpo.
— Ele está bastante machucado e com muita dor — disse Flor Pérez à AFP, no estado de Lara, no centro da Venezuela, acrescentando que o filho foi levado duas vezes a um hospital, mas retornou ao centro de detenção sem que o projétil fosse retirado.
Contexto: ‘Ainda estou com a bala aqui dentro’, relata venezuelano detido pelo ICE nos EUA
O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular
Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo, qualidade de vida e vistos de 36 países
Ainda segundo relato da mãe, o venezuelano recebeu apenas analgésicos das enfermeiras do local e precisa de uma cama hospitalar. Garcés foi baleado na parte superior das costas durante uma operação do ICE e, nesta quarta, em entrevista coletiva a partir do centro de detenção, ele afirmou que o disparo fraturou sua clavícula. Os médicos não conseguiram retirar a bala pela proximidade do projétil com sua coluna.
Horas depois, sua advogada, Kate Lincoln-Goldfinch, informou que o venezuelano havia sido novamente transferido para um hospital por apresentar paralisia do lado esquerdo. Segundo ela, Garcés usa uma tipoia e apresenta “inchaço significativo e dor”. A causa e a extensão da perda de movimentos ainda não foram determinadas.
Antes, a advogada já havia dito à BBC que Garcés tinha sido levado novamente ao hospital na noite de segunda-feira, depois de não conseguir movimentar o braço no centro de detenção. Após receber atendimento, ele foi novamente encaminhado à unidade. De acordo com a advogada, durante a transferência, o venezuelano foi algemado nas mãos e nos tornozelos, preso a uma corrente na cintura e tratado de maneira brusca, apesar dos ferimentos.
Protestos ocorrem no Texas: Após venezuelano ser baleado pelo ICE, defesa diz que ele foi detido com bala alojada no corpo
A advogada ainda afirmou que funcionários do centro de detenção retiraram os privilégios de comunicação de Garcés e o transferiram da enfermaria para uma sala isolada, com uma cama plana e não ajustável. O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) contestou as acusações e disse que o venezuelano recebeu atendimento médico “24 horas por dia”. O órgão também negou que Garcés tenha ficado sem analgésicos ou sido obrigado a dormir no chão.
“Esse imigrante recebeu alta do hospital e chegou ao centro de detenção apenas algumas horas depois, onde dormiu em uma cama”, disse o DHS em comunicado divulgado na terça-feira.
‘Mãe, atiraram em mim’
A mãe do venezuelano, por sua vez, pediu que o episódio seja investigado e que o agente responsável pelo disparo seja punido. Flor classificou a ação como uma violação dos direitos humanos e contou que estava em uma videochamada com o filho quando ocorreu o episódio.
— Ele me ligou por videochamada, e eu o vi no momento em que estava estacionado, sentado dentro do carro, e ele me contou que vinha um carro e bateu nele — relatou. — Então ele disse: ‘Mãe, atiraram em mim, atiraram em mim’.
Entenda: Juíza bloqueia segunda tentativa de Trump de restringir cidadania por nascimento nos EUA
Segundo Lincoln-Goldfinch, Garcés fazia uma entrega para a plataforma DoorDash quando uma caminhonete preta sem identificação atingiu a lateral de seu carro. A advogada afirmou que ele não sabia que o veículo pertencia ao ICE e fez um retorno. Seu carro teria sido atingido novamente antes de os agentes desembarcarem e atirarem contra ele.
O DHS apresentou outra versão sobre o episódio. O departamento afirmou que Garcés era alvo de uma abordagem direcionada a um veículo e o classificou como um “imigrante ilegal” sem status legal para permanecer nos Estados Unidos. Segundo o órgão, sua autorização de trabalho havia expirado no ano passado.
Na terça, o DHS também contestou o que chamou de “narrativas falsas” sobre o caso e acusou cidades-santuário — onde há políticas mais favoráveis aos migrantes — e a imprensa de “espalhar mentiras”. O secretário do departamento, Markwayne Mullin, disse à BBC que Garcés recebeu “alguns dos melhores cuidados médicos que já teve em sua vida” e disse que o episódio não faria o ICE reduzir suas operações.
Apoiador das políticas de imigração de Trump: Influenciador de extrema direita britânico é deportado dos EUA
O Departamento de Polícia de Austin, que não participou da operação, divulgou imagens de câmeras dos policiais que atenderam à ocorrência. As gravações não mostram o momento em que Garcés foi baleado, mas vários disparos podem ser ouvidos. Uma delas mostra policiais se aproximando do carro do venezuelano e detendo-o. Sua camiseta então é cortada, revelando o que parece ser uma perfuração de bala nas costas.
O agente do ICE que baleou Garcés, que ingressou na agência no ano passado, não usava uma câmera corporal no momento do episódio, segundo fontes ouvidas pela CBS News. Autoridades locais e estaduais pediram uma investigação independente sobre o caso.
Deportação bloqueada
Paralelamente, Lincoln-Goldfinch, a advogada do venezuelano, entrou com uma ação na Justiça federal para impedir que Garcés seja retirado dos EUA. O juiz Orlando Garcia determinou que ele compareça pessoalmente a uma audiência em 30 de setembro, o que bloqueia temporariamente sua deportação até essa data, segundo a advogada.
“Por enquanto, conseguimos um bloqueio temporário de sua deportação enquanto o caso avança”, escreveu Lincoln-Goldfinch nas redes sociais. “Este é um passo importante, mas nosso trabalho ainda não terminou. Wilber ainda precisa de atendimento médico adequado, e continuaremos lutando para proteger seus direitos”.
Recorde de prisões: ICE detém quase 50 mil imigrantes em julho, maior marca em 1 mês no segundo governo Trump
Segundo seus familiares, Garcés estava havia mais de cinco anos fora da Venezuela e entrou legalmente nos EUA, vindo do México, há quase três anos, por meio do programa de parole humanitário, com um pedido de asilo em andamento. Uma familiar, Angelsis Vásquez, afirmou que ele tinha autorização para trabalhar como entregador do DoorDash. O DHS, por sua vez, sustenta que essa autorização expirou no ano passado.
Na Venezuela, Flor Pérez vive com o filho de Garcés, um menor de idade que tem paralisia cerebral desde o nascimento. Segundo a família, a criança depende financeiramente das remessas enviadas pelo pai do Texas para pagar medicamentos e tratamentos.
Outros parentes também criticaram a atuação do ICE e afirmaram não ter informações claras sobre a situação de Garcés. Sua tia, Gladys Pérez, manifestou o “repúdio absoluto” da família ao que classificou como uso excessivo da força e disse que os parentes ainda desconhecem sob qual situação jurídica ele está detido.
— A verdade é que não havia motivo para atirar em Wilber. Dizem que ele fugiu. No entanto, não me parece que isso seja um motivo. Ele não é um criminoso. Não deve ser tratado como tal — afirmou Gladys, no estado de Yaracuy, no centro-norte da Venezuela.
A avó do venezuelano, María Flor Sequera, também manifestou sua preocupação com o caso e disse esperar que “tudo isso termine bem”, com a recuperação do neto e o esclarecimento de sua situação. Na terça-feira, o deputado democrata pelo Texas Joaquin Castro também pediu que Garcés seja libertado do centro de detenção.
(Com AFP)
‘Machucado e com muita dor’: Mãe de migrante venezuelano baleado pelo ICE pede que ele seja operado com urgência
