Foi o próprio corpo que fez Lázaro Ramos parar. Durante as gravações da novela “Elas por Elas”, em 2023, o ator atravessava uma sequência intensa de trabalhos, dormia mal e não conseguia manter uma alimentação adequada. Até que desmaiou durante uma viagem a Salvador e acordou no hospital. O diagnóstico de burnout veio junto com a constatação de que o ritmo que vinha sustentando já havia ultrapassado seus limites.
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“O meu corpo pifou”, resumiu Lázaro ao recordar o episódio. O afastamento da novela durou dez dias e marcou uma mudança na relação do ator com o trabalho. Desde então, ele passou a priorizar um projeto por vez e a observar com mais atenção os sinais de cansaço.
A experiência tem paralelo com a de outros homens conhecidos que decidiram falar publicamente sobre o assunto. Marcelo Serrado já contou ter enfrentado crises de pânico, ansiedade e burnout e, mais recentemente, voltou a abordar o próprio tratamento. Ao falar sobre o tema, o ator também chamou atenção para uma questão que atravessa a experiência masculina: a ideia de que demonstrar fragilidade seria uma espécie de fracasso.
Serrado relatou ter ouvido de outros homens que bastaria jogar futebol ou se distrair para resolver o problema. Comentários assim ajudam a explicar por que, para muitos, reconhecer que algo não vai bem pode ser mais difícil do que continuar seguindo a rotina.
Para a psicóloga Daisy Cangussú, especialista em gestão de pessoas e saúde mental, uma das barreiras está justamente na associação entre independência e capacidade de enfrentar tudo sozinho.
“Existe uma associação cultural curiosa entre independência e capacidade de resolver tudo sozinho. Mas autonomia não significa ausência de apoio” explica.
Quando continuar funcionando também pode ser um sinal de alerta
O sofrimento emocional nem sempre aparece de maneira evidente. Não é obrigatório chorar, abandonar o trabalho ou interromper a rotina para que exista um problema. Irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração, perda de prazer, cansaço persistente e isolamento também podem indicar que alguma coisa não vai bem.
Há ainda quem continue trabalhando, cuidando da família e cumprindo compromissos enquanto emprega uma quantidade cada vez maior de energia para manter tudo funcionando. É nesse cenário que a pergunta “ainda estou dando conta?” pode esconder mais do que revelar.
“Nem todo sofrimento psicológico aparece como tristeza e nem toda pessoa que está sofrendo deixa de funcionar. Talvez seja necessário perguntar também: quanto está me custando continuar dando conta dessa maneira?”, afirma Daisy.
No caso de Lázaro, o limite acabou aparecendo de forma física. A rotina de trabalho sem pausas suficientes, o sono irregular e a alimentação inadequada culminaram no desmaio e no diagnóstico de burnout. Foi preciso interromper as gravações para que o ator pudesse se recuperar.
O peso do ‘isso é frescura’
Marcelo Serrado tornou-se uma das vozes masculinas a tratar publicamente de episódios de ansiedade e síndrome do pânico. Ao relembrar suas crises, também falou sobre a resistência que encontrou ao abordar o tema e sobre comentários que reduziam o problema a “frescura”.
A reação não é isolada. Em uma cultura que frequentemente associa masculinidade à resistência, admitir exaustão, medo ou vulnerabilidade pode parecer incompatível com a imagem de homem que muitos aprenderam a sustentar. O resultado pode ser o adiamento de uma conversa que, em alguns casos, já deveria ter começado.
“Na saúde mental, ainda existe uma tendência a esperar. Esperamos que os sintomas passem, que melhorem sozinhos, as férias, o fim daquele projeto ou um período menos difícil. Às vezes, esperamos até não conseguirmos mais”, diz Daisy.
Não é preciso chegar ao limite
Burnout, crises de pânico ou outros quadros não precisam ser o ponto de partida para buscar acompanhamento psicológico. A procura por um profissional também pode acontecer diante de mudanças de vida, dificuldades nos relacionamentos, luto, separações, desafios da paternidade ou simplesmente quando determinados padrões começam a provocar sofrimento.
Segundo Daisy, três aspectos ajudam a avaliar quando é importante buscar orientação profissional: duração, intensidade e prejuízo. Vale observar há quanto tempo uma mudança persiste, se os sintomas estão se tornando mais intensos e quanto interferem no sono, no trabalho, na alimentação, nos relacionamentos ou nas atividades habituais.
A psicoterapia, portanto, não precisa ser encarada como último recurso, acionado apenas quando a pessoa já não consegue seguir adiante. O acompanhamento também pode funcionar como espaço de compreensão e prevenção, antes que o desgaste se transforme em um colapso.
Pedir ajuda também é uma forma de cuidado
Os relatos de Lázaro Ramos e Marcelo Serrado têm em comum o momento em que o sofrimento deixou de ser possível de ignorar. Ao tornarem essas experiências públicas, os atores ajudam a colocar em discussão uma questão que ultrapassa o universo das celebridades: a dificuldade de reconhecer limites antes que o corpo ou a mente imponham uma pausa.
“Procurar um psicólogo não significa entregar a outra pessoa a responsabilidade pelas próprias escolhas. Um bom processo psicológico deveria produzir justamente o contrário: ampliar a capacidade de compreender o que se vive, reconhecer possibilidades e assumir decisões com maior consciência”, avalia Daisy.
A ideia de resistência também pode ser revista. Suportar indefinidamente não é necessariamente sinal de força e continuar cumprindo tarefas não significa, por si só, estar bem.
“Não é preciso estar doente para cuidar da saúde mental. Esperar até que o sofrimento comprometa profundamente a vida não é prova de força. Em muitos momentos, reconhecer que precisamos de ajuda é uma das formas mais maduras de cuidar de nós mesmos”, conclui a psicóloga.
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