“Das peças do Nelson Rodrigues, ‘Senhora dos afogados’ é talvez a que Zé Celso (1937-2023) mais gostasse”, relembra Marcelo Drummond sobre o fundador do Teatro Oficina, que sonhava em montar, e até filmar, o clássico. Sob direção de Monique Gardenberg, o grupo realiza o desejo do mestre com montagem que chega ao Rio de Janeiro após ser vista por mais de 50 mil pessoas em São Paulo. As sessões terão fila de espera.
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Considerado um dos trabalhos mais emblemáticos do autor, o espetáculo chegou a ser censurado e dividiu o público na estreia, em 1954, com Nathalia Timberg no elenco e direção de Bibi Ferreira. Em diálogo com histórias gregas como “Édipo” e “Electra”, a trama ambientada numa casa à beira-mar explora a tragédia da família Drummond, marcada por desejos incestuosos, traições e mortes de mulheres levadas pelo mar.
Misael, interpretado por Marcelo, é um juiz que esconde um segredo: assassinou uma prostituta no dia de seu casamento com Dona Eduarda (Leona Cavalli). Quase 20 anos depois, o casal vê a filha Clarinha morrer afogada na mesma data em que anualmente as prostitutas do cais protestam pelo crime, que segue impune. A família acredita que a jovem se suicidou, mas na verdade foi a irmã, Moema (Lara Tremouroux), quem a matou, por inveja da atenção do pai.
Lara Tremouroux, Marcelo Drummond e Regina Braga em cena de “Senhora dos afogados”, do Teatro Oficina
Divulgação/Laura Carvalho
— Nelson escancara a hipocrisia da “família de bem”, que se usa do discurso moralista enquanto comete atos que diz repudiar, que fala em nome de Deus, mas manda matar. É a dinâmica que observamos nos recentes vazamentos do escândalo do Banco Master, por exemplo — reflete Lara.
O clima alucinatório da narrativa é ressaltado por elementos audiovisuais e pela trilha sonora, assinada por Monique, que vai do fado “Foi Deus”, de Amália Rodrigues, a “Alma sebosa”, de Johnny Hooker, entoada ora pela banda, ora pelo coro de mulheres do cais.
— Com a tecnologia, Zé Celso deu ao Teatro Oficina um segundo nome: Terreiro Eletrônico. Em “Senhora dos afogados”, temos a cena filmada, de outros ângulos, e a possibilidade de close-ups, importantes para atingir a intensidade que essa tragédia mítica pede — explica Monique, que também dirige no cinema e costuma misturar as linguagens no palco.
Leona Cavalli na montagem de “Senhora dos Afogados” do Teatro Oficina, que chega ao Rio nesta sexta (18)
DivulgaçSérgio Fernandes
Além da diretora convidada, somam-se ao grupo nomes como Regina Braga (no papel da avó) e Cristina Mutarelli, Giulia Gam, Michele Matalon e Lígia Cortez, como vizinhas que importunam os Drummond.
A peça chega ao Rio fazendo sucesso antes mesmo da estreia, que ocorre poucos meses após o público carioca fazer fila para assistir a “O beijo no asfalto”, outro clássico de Nelson, em versão estrelada por Edson Celulari, Eduardo Sterblitch e Luisa Arraes.
— Nelson traz uma uma fala extremamente popular e erudita ao mesmo tempo. Ele usa palavras que poderiam ser ditas em qualquer esquina em uma formação muito precisa. Seu texto é perfeito, e por isso acho que dialoga com qualquer época — opina Leona sobre o sucesso absoluto do Shakespeare brasileiro.
Marcelo complementa:
— Ele não tem vergonha de escancarar o lado podre da sociedade brasileira, por isso sempre chamou a atenção, mesmo quando era “cancelado”.
Serviço
Onde: Galpão Ação e Cidadania, Santo Cristo.
Quando: Qui a sáb, às 19h. Dom, às 17h. Até 3 de outubro.
Quanto: R$ 120 (a venda de ingressos está esgotada, mas há fila de espera).
Classificação: 16 anos.
Teatro Oficina traz clássico de Nelson Rodrigues ao Rio
