O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste domingo um suposto acordo de cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia, que, segundo ele, entraria em vigor imediatamente. A declaração, feita nas redes sociais, ocorreu horas depois de o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, rejeitar a pressão americana para interromper os ataques contra refinarias russas. Mais tarde, Zelensky disse desconhecer a trégua anunciada por Trump, mas afirmou que aceitaria o acordo se Moscou também suspendesse os bombardeios. A Rússia não comentou.
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“Com efeito imediato, há um cessar-fogo energético na guerra entre Rússia e Ucrânia. Ambas as partes concordaram. Não o violem!”, escreveu Trump na Truth Social, sem fornecer detalhes.
Ao Axios, Zelensky afirmou que a publicação do americano foi a primeira notícia que recebeu sobre a existência de um entendimento. Um alto funcionário ucraniano também disse ao Financial Times que Kiev não tinha informações sobre o anúncio, enquanto outro representante do governo declarou à Reuters que a Ucrânia estava disposta a aceitar um cessar-fogo energético, desde que a Rússia concordasse.
— O anúncio do cessar-fogo foi uma novidade para mim. Mas, se os russos concordarem com um cessar-fogo energético, a Ucrânia também concordará. Se o presidente Trump negociou isso com Putin, por favor, digam-nos quando o cessar-fogo começa. Estamos prontos e vamos aceitá-lo — disse Zelensky, segundo o Axios.
Sanções americanas
O anúncio ocorre dias após Trump suspender as sanções americanas sobre as exportações russas de diesel. Na sexta-feira, Trump argumentou que os ataques ucranianos contra refinarias da Rússia contribuem para a alta dos preços globais dos combustíveis, o que se tornou um problema político para seu Partido Republicano às vésperas das eleições de meio de mandato, previstas para novembro.
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A forte elevação dos preços do diesel ocorreu após o início da guerra contra o Irã, em fevereiro, e tem prejudicado as perspectivas eleitorais dos republicanos, que correm o risco de perder o controle de uma ou das duas Casas do Congresso para os democratas nas eleições de meio de mandato, previstas para novembro. Zelensky rejeitou a responsabilidade pela alta dos preços, afirmando que “todo mundo no mundo” sabe que o conflito no Oriente Médio é o fator mais importante para a crise.
No sábado, Trump advertiu Zelensky de que seria “bom que ele parasse de uma vez por todas” de atacar refinarias russas. O americano também afirmou que a Ucrânia precisava de um “novo líder” e defendeu a realização de eleições para substituir Zelensky, a quem acusou de desperdiçar oportunidades de alcançar um acordo com Moscou.
O líder ucraniano, por sua vez, classificou a decisão como “fraca” e afirmou que ela poderia gerar bilhões em receitas adicionais para o presidente russo, Vladimir Putin, permitindo que Moscou intensificasse a guerra e provocasse mais mortes de civis.
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Analistas afirmaram que o acordo dificilmente produziria uma redução dos preços dos combustíveis, enquanto parlamentares americanos e de governos europeus alertaram para o risco de enfraquecimento da pressão econômica sobre Moscou. No X, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, escreveu: “A suspensão das sanções ao diesel russo proporciona a Moscou mais receitas para travar a guerra. Este não é o momento de aliviar a pressão sobre a Rússia, e a Europa não fará isso”.
‘Garantias reais’
Antes do anúncio de Trump neste domingo, Zelensky havia reiterado que a Ucrânia estava disposta a interromper os ataques de drones de longo alcance contra refinarias e outras instalações energéticas em território russo, desde que Moscou suspendesse os bombardeios contra a infraestrutura elétrica ucraniana. Qualquer entendimento, disse ele, precisaria ser recíproco e acompanhado de “garantias reais”.
— A verdadeira causa da guerra na Europa é a Rússia, e somente a Rússia. É possível interromper os ataques à infraestrutura energética ainda hoje, mas Putin não quer fazer isso — disse Zelensky.
Trump já havia anunciado um suposto cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia em setembro, mas nenhuma das partes confirmou posteriormente a existência do acordo. Desta vez, o presidente americano também não apresentou informações sobre os mecanismos de implementação ou fiscalização da trégua, enquanto autoridades ucranianas afirmaram não ter recebido detalhes.
— Neste exato momento, nossas equipes de reparo estão restabelecendo o fornecimento de eletricidade e água em Kiev. Ninguém ouviu falar [do cessar-fogo] — disse um alto funcionário ucraniano ao Financial Times.
Enquanto isso, os ataques russos continuaram durante a madrugada de sábado para domingo, deixando oito feridos em Kiev e matando um menino de 11 anos em Dnipro, no centro da Ucrânia, segundo autoridades locais. Após bombardeios contra instalações de energia e abastecimento de água, o governo da capital recomendou que os moradores armazenassem água diante das interrupções nos serviços.
Em território russo, drones ucranianos também atingiram neste domingo outro importante centro de dados operado pela gigante de tecnologia Yandex, na região de Vladimir, a leste de Moscou. Foi a terceira instalação da empresa atacada em quatro dias, em uma sequência que provocou interrupções generalizadas nos serviços de internet em diferentes regiões do país. Serviços online também ficaram indisponíveis no Aeroporto de Pulkovo, em São Petersburgo, e na rede de fast-food Vkusno I Tochka, que substituiu o McDonald’s na Rússia.
Pressão por eleições
Em meio à disputa com Trump, Zelensky afirmou neste domingo que estaria disposto a organizar eleições presidenciais na Ucrânia caso Putin concordasse com um cessar-fogo total de 60 dias. Em entrevista ao programa “This Week”, da ABC, o líder ucraniano ressaltou que a decisão sobre quem deve governar o país cabe exclusivamente à população, mas que a suspensão dos combates é uma condição necessária.
— Por favor, digam a Putin: deem-nos dois meses, 60 dias de cessar-fogo total, 60 dias, e organizaremos eleições — afirmou Zelensky.
A legislação ucraniana proíbe a realização de eleições durante a vigência da lei marcial, imposta por razões de segurança após a invasão russa. Nas ruas de Kiev, moradores manifestaram indignação com a sugestão de que os Estados Unidos ou a Rússia deveriam determinar quem governa a Ucrânia. Embora alguns tenham interpretado as declarações de Trump como uma tentativa de obter ganhos políticos internos antes das eleições americanas, outros classificaram a pressão de Washington como uma traição por parte de um dos principais aliados do país.
— Ninguém tem o direito de nos dizer o que fazer, especialmente porque eleições não podem ser realizadas durante a guerra. Na minha opinião, é uma traição por parte dos nossos parceiros — afirmou Sabina, professora do ensino fundamental de 40 anos, à Reuters.
Índice de aprovação
A controvérsia ocorre em um momento de desgaste político para Zelensky, que enfrenta críticas internas relacionadas a acusações de corrupção envolvendo integrantes de seu círculo próximo e a decisões sobre nomeações e demissões no governo, incluindo a destituição do popular ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. Segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, a parcela de ucranianos que confiam no presidente caiu de 65% no ano passado para 58%.
Apesar disso, mesmo opositores de Zelensky rejeitaram a interferência de Trump na política ucraniana, argumentando que a escolha da liderança nacional deve caber exclusivamente aos cidadãos do país. A reprimenda americana também pode favorecer o presidente ucraniano internamente, como ocorreu após as críticas públicas de Trump durante uma reunião na Casa Branca em 2025, que foram seguidas por um aumento de seu apoio.
“Não há nada no mundo que pudesse aumentar mais o índice de aprovação de Zelensky hoje do que os ataques infantis de Trump contra ele, aos gritos de que precisa ser substituído”, escreveu no X o militar ucraniano Mykhailo Lavrovskyi.
Zelensky afirmou que manteria conversas com líderes europeus neste domingo sobre o apoio militar ao país, incluindo novos pacotes de defesa aérea e munições para aeronaves de combate utilizadas na interceptação de drones russos equipados com motores a jato.
(Com New York Times)
Trump anuncia cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia; Zelensky diz desconhecer acordo e condiciona trégua a Moscou
